Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) foi um profícuo escritor do final do século XIX e início do século XX. De toda a sua obra há um nome que sobressai e que ficará para sempre na memória popular e literária: Sherlock Holmes. Mas não é sobre isso que me vou aqui debruçar. Seria de esperar que o criador do mais famoso detective do mundo fosse alguém com um espírito céptico, de raciocínio dedutivo e apenas aberto a provas concretas e irrefutáveis.
Mas a verdade é que na sua vida pessoal Conan Doyle foi um dos maiores e mais crédulos defensores do espiritualismo de que há memória.
Homem muito activo, entregou-se a diversas causas ao longo da vida, muitas das quais louváveis. Mas nos seus últimos anos, as suas campanhas internacionais, altamente publicitadas, pelo movimento espiritualista, trouxeram-lhe alguma ridicularidade. Foi-lhe mesmo atribuída a alcunha de "São Paulo do Espiritualismo". Neste assunto o criador de Holmes mostrou-se paradoxalmente ingénuo. Estava convencido, por exemplo, da existência das fadas fotografadas em Gottingley em 1917 mesmo depois das duas raparigas envolvidas no truque terem admitido que eram apenas recortes.
Conan Doyle afirmou inclusive que alguns dos truques de Harry Houdini, o famoso ilusionista e escapista americano deviam o seu sucesso a forças sobrenaturais apesar de Houdini (que considerava os videntes fraudes) ter insistido que não era o caso. Para além disso, Doyle afirmou que o espírito do falecido Joseph Conrad o tinha convidado para terminar o romance inacabado Suspence. Isto foi curiosamente irónico, já que Conrad, num dos seus prefácios, tinha declarado "o mero sobrenatural" como sendo "um artigo manufacturado, o fabrico de mentes insensíveis, um ultraje à nossa dignidade."
Um dos contos de Doyle, The Land of Mist (1926), procura convencer o leitor da existência de espíritos partindo de uma posição céptica, usando a personagem do Professor Challenger.
Tudo isto para dizer o quê? Em minha opinião é fascinante a capacidade do nosso cérebro em compartimentalizar ideias aparentemente contrárias, uma espécie de duplo-pensar à boa maneira Orwelliana. Como quando um geólogo cuja profissão é estudar rochas com centenas de milhões de anos consegue afirmar ao domingo que acredita que o planeta Terra tem uns meros seis mil anos. Leva-me a questionar se estas pessoas simplesmente mentem sobre aquilo em que acreditam conforme a situação o justifique, ou se quando surge uma contradição o seu cérebro simplesmente bloqueia a questão para que não tenham de pensar, quase como um mecanismo de defesa.
Outra hipótese é a apresentada por Michael Shermer (psicólogo, autor e editor-chefe da revista Skeptic): quando alguém se compromete com uma crença, quanto mais inteligente for, melhor será a racionalizar essa crença. Daí pessoas inteligentes acreditarem em coisas estranhas, porque são eficazes a defender crenças às quais chegaram por razões não-inteligentes.
Isto fascina-me porque, tanto quanto consigo entender-me a mim próprio, eu não escolho aquilo em que acredito mesmo que pudesse obter proveito nisso. Claro que posso mentir ás outras pessoas, mas não à minha própria consciência. Talvez o Natal fosse mais interessante se eu ainda acreditasse no Pai Natal, mas não consigo. Passar-se-à o mesmo com as outras pessoas ou sou eu que sou esquisito?
Outra hipótese é a apresentada por Michael Shermer (psicólogo, autor e editor-chefe da revista Skeptic): quando alguém se compromete com uma crença, quanto mais inteligente for, melhor será a racionalizar essa crença. Daí pessoas inteligentes acreditarem em coisas estranhas, porque são eficazes a defender crenças às quais chegaram por razões não-inteligentes.
Isto fascina-me porque, tanto quanto consigo entender-me a mim próprio, eu não escolho aquilo em que acredito mesmo que pudesse obter proveito nisso. Claro que posso mentir ás outras pessoas, mas não à minha própria consciência. Talvez o Natal fosse mais interessante se eu ainda acreditasse no Pai Natal, mas não consigo. Passar-se-à o mesmo com as outras pessoas ou sou eu que sou esquisito?