terça-feira, 11 de abril de 2017

Compartimentos mentais

Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) foi um profícuo escritor do final do século XIX e início do século XX. De toda a sua obra há um nome que sobressai e que ficará para sempre na memória popular e literária: Sherlock Holmes. Mas não é sobre isso que me vou aqui debruçar. Seria de esperar que o criador do mais famoso detective do mundo fosse alguém com um espírito céptico, de raciocínio dedutivo e apenas aberto a provas concretas e irrefutáveis.
Mas a verdade é que na sua vida pessoal Conan Doyle foi um dos maiores e mais crédulos defensores do espiritualismo de que há memória.
Homem muito activo, entregou-se a diversas causas ao longo da vida, muitas das quais louváveis. Mas nos seus últimos anos, as suas campanhas internacionais, altamente publicitadas, pelo movimento espiritualista, trouxeram-lhe alguma ridicularidade. Foi-lhe mesmo atribuída a alcunha de "São Paulo do Espiritualismo". Neste assunto o criador de Holmes mostrou-se paradoxalmente ingénuo. Estava convencido, por exemplo, da existência das fadas fotografadas em Gottingley em 1917 mesmo depois das duas raparigas envolvidas no truque terem admitido que eram apenas recortes. 
Conan Doyle afirmou inclusive que alguns dos truques de Harry Houdini, o famoso ilusionista e escapista americano deviam o seu sucesso a forças sobrenaturais apesar de Houdini (que considerava os videntes fraudes) ter insistido que não era o caso. Para além disso, Doyle afirmou que o espírito do falecido Joseph Conrad o tinha convidado para terminar o romance inacabado Suspence. Isto foi curiosamente irónico, já que Conrad, num dos seus prefácios, tinha declarado "o mero sobrenatural" como sendo "um artigo manufacturado, o fabrico de mentes insensíveis, um ultraje à nossa dignidade." 
Um dos contos de Doyle, The Land of Mist (1926), procura convencer o leitor da existência de espíritos partindo de uma posição céptica, usando a personagem do Professor Challenger. 
Tudo isto para dizer o quê? Em minha opinião é fascinante a capacidade do nosso cérebro em compartimentalizar ideias aparentemente contrárias, uma espécie de duplo-pensar à boa maneira Orwelliana. Como quando um geólogo cuja profissão é estudar rochas com centenas de milhões de anos consegue afirmar ao domingo que acredita que o planeta Terra tem uns meros seis mil anos. Leva-me a questionar se estas pessoas simplesmente mentem sobre aquilo em que acreditam conforme a situação o justifique, ou se quando surge uma contradição o seu cérebro simplesmente bloqueia a questão para que não tenham de pensar, quase como um mecanismo de defesa.
Outra hipótese é a apresentada por Michael Shermer (psicólogo, autor e editor-chefe da revista Skeptic): quando alguém se compromete com uma crença, quanto mais inteligente for, melhor será a racionalizar essa crença. Daí pessoas inteligentes acreditarem em coisas estranhas, porque são eficazes a defender crenças às quais chegaram por razões não-inteligentes.  
Isto fascina-me porque, tanto quanto consigo entender-me a mim próprio, eu não escolho aquilo em que acredito mesmo que pudesse obter proveito nisso. Claro que posso mentir ás outras pessoas, mas não à minha própria consciência. Talvez o Natal fosse mais interessante se eu ainda acreditasse no Pai Natal, mas não consigo. Passar-se-à o mesmo com as outras pessoas ou sou eu que sou esquisito?       

Argumentos Religiosos: Evolução é teoria

Recentemente fui interpelado por duas testemunhas de Jeová a caminho de casa. À minha aproximação, a porta-voz abeirou-se e afirmou, quase de forma acusatória, "sabia que a evolução é uma invenção dos cientistas? É só uma teoria!" Naquele dia em particular optei simplesmente por dizer que não concordava mas estava demasiado ocupado para ficar ali a falar. Ainda assim, fiquei a pensar o ilógico que é aquela abordagem para tentar converter alguém e que só demonstra que estas pessoas não tiveram formação sobre o assunto, mas simplesmente doutrinação.    
Quando religiosos aplicam a palavra "teoria" ao conceito de evolução, estão a fazê-lo referindo-se ao uso corrente da palavra, quase como sinónimo de opinião. O seu objectivo é claro: dar a entender que a teoria da evolução natural é apenas uma opinião dos cientistas, e assim, subjectiva e abdicável. 
Esta táctica é muitas vezes usada de forma premeditada, mas pode também surgir de uma ignorância genuína. 
Em ciência "teoria" não designa uma mera opinião. Embora, diga-se que se fosse, preferiria acreditar na opinião de alguém com experiência na área que dedica a sua vida a estudar o assunto do que em alguém que se limita a obter toda a "sabedoria" de um livro escrito há mais de mil anos por autores anónimos do médio oriente. 
No conceito científico, uma teoria é um modelo que procura explicar os factos observados*. Neste caso, o facto observado é a evolução. Sabemos que ela ocorre porque podemos observá-la. É a pedra basilar de toda a biologia. A medicina e a industria farmacêutica não funcionariam sem ela. Porque temos constantemente de criar novas vacinas para a gripe? Porque o vírus evolui, caso contrário bastaria uma. Muitas vezes, quando confrontados com esta evidência, os religiosos evocam a micro e macro evolução. Para eles, as mutações de vírus são micro evolução, e não a negam, e a transição entre espécies que não se consegue observar pelo facto óbvio de levar milhares ou milhões de anos, é macro evolução, que negam. Estes são dois termos inventados pelos religiosos que não são tidos em conta pelos biólogos, por um motivo muito simples: são a mesma coisa. O processo físico-químico que leva um vírus a mudar a sua constituição e o processo que leva um dinossauro a tornar-se uma galinha é o mesmo, a única diferença é a escala temporal. Seria como dizer que se acredita que o nascimento do primeiro dente de um bebé constitui um micro envelhecimento e negar o macro envelhecimento de que aquele bebé será um dia um adulto.
Portanto, a evolução é um facto, tão demonstrável como a Terra girar em torno do Sol (que curiosamente a igreja também negou durante muito tempo como se sabe). A teoria a que nos referimos é a que procura explicar como a evolução ocorre. A resposta é a selecção natural, apresentada por Darwin na obra "A Origem das Espécies" em 1859. Não se trata de uma opinião, nem de um dogma inquestionável, é simplesmente o modelo que melhor se adequa e explica o fenómeno observado. Desde Darwin, a teoria foi testada incontáveis vezes, melhorada, e revista; e ao longo de 150 anos, resistiu ao escrutínio, não porque quem a defende tenha interesses ou doutrinas que queira propagar, mas porque a teoria se mostrou adequada. Não quer isto dizer que não possa algum dia vir a ser desmentida ou alterada, mas para já representa a melhor forma que temos de entender o fenómeno da evolução.   
Aqui reside a principal diferença entre a ciência e a religião: a ciência admite sempre que pode estar errada, bastando para isso que surjam provas, a religião pensa já ter as respostas e que não pode estar errada, com ou sem provas. (Este contraste ficou imortalizado no debate entre Bill Nye e Ken Ham) 
O facto dos religiosos atacarem uma teoria cientifica denota bem a sua escassez de argumentos a favor da sua doutrina: mesmo que fosse provado hoje mesmo que a evolução não ocorre e que a ciência está toda errada, isso não levaria uma pessoa racional e intelectualmente honesta, a aproximar-se da crença em Deus nem um milímetro. Porque uma não implica a outra. Não implica um criador sobre-natural, e muito menos um Deus pessoal como o da Bíblia.  
É compreensível a razão dos religiosos se preocuparem tanto com a evolução. Ela consegue, por si só, refutar todo o cristianismo. Isto porque na base do mesmo, está a ideia de Deus ter criado Adão e Eva, estes terem pecado, e Jesus ter morrido na cruz para pagar por esses pecados. Se se aceitar a evolução, o ser humano evoluiu de espécies anteriores ao longo de milhões de anos, logo, não houve Adão e Eva, logo não houve pecado original, logo Jesus é desnecessário ou irrelevante.                   

*Nota: "Em linguagem comum, muitas vezes o termo «teoria» significa hipótese. Cientificamente, o termo «teoria» é específico e utiliza-se para designar o processo de construção de estruturas conceptuais formais em ciência. Assim, as teorias são estruturas compostas por leis e pelas regras segundo as quais essas leis se juntam." (C. Coelho Ferreira & N. Neves Simões. A Evolução do Pensamento Geográfico (1986). Gradiva p.18)