domingo, 15 de junho de 2014

Touradas

Vamos a mais um tema polémico: touradas. Eu sou contra a sua existência. Como a maior parte dos temas polémicos, este possui argumentos a favor e contra, fãs e opositores, mas se há algo que pode funcionar para ultrapassar estas divergências é o debate. Esse é o meu ponto de vista. Daí me ter chamado a atenção a crónica de tauromaquia que todos os sábados é publicada na secção de Cultura do Correio da Manhã. A crónica a que me estou a referir é a do dia 31 de Maio de 2014, da autoria de Maurício do Vale e tem por título "A riqueza popular da festa taurina". No fundo, esta crónica procura passar a ideia que a tourada reúne "gente erudita e notáveis das mais diversas áreas." Nada a opor. Não duvido que reúna. Mas o que me "chocou" foi a forma como acabou a crónica: 


"Discuti-la para melhorá-la e promovê-la, sim! Mas para "sim ou não" é tempo mal gasto e falta de bom senso..."


Discutir a existência de tourada é falta de bom senso? A ideia que me dá é que não se quer discutir o assunto porque, para já, ainda é aceite pela maioria da população e à falta de bons argumentos, mais vale não discutir senão em vez de ganhar novos apoiantes, ainda pode ganhar novos opositores. Já é hábito aqui do meu blog publicar os argumentos habitualmente usados pela facção à qual me oponho e apresentar as minhas respostas, mas neste caso, as respostas não são minhas mas sim do blog "O Melhor e Pior" de Nuno Costa. Faço-o porque ao pesquisar o tema encontrei o dito blog onde a minha opinião estava bem expressa e no mesmo formato que eu costumo usar. Assim sendo, crédito a Nuno Costa:

As Touradas são uma tradição antiga e por isso devem ser defendidas e perpetuadas.
As touradas são de facto uma tradição (importada de Espanha). Mas isso por si só não deve justicar que se pratiquem. As tradições têm normalmente origem em tempos antigos, em que as sociedades, mentalidades e modos de vida eram bastante diferentes dos actuais. Com o tempo, o Homem e as suas comunidades tendem a aperfeiçoar e desenvolver a sua forma de viver e pensar. Chama-se a isso evolução. É por essa razão que já não tomamos banho com baldes de água aquecida numa fogueira, é por essa razão que a escravatura, que tanto agradava a algumas pessoas, foi abolida e é também por essa razão que já não acreditamos que basta dançar ou sacrificar um animal para fazer chover.
As tradições, por muito bonitas que sejam, só fazem sentido quando são compatíveis com as formas de pensar e os conceitos vigentes. Como hoje em dia, o respeito pelo sofrimento dos animais começa a fazer parte da forma de pensar de muita gente, as Touradas deveriam ser postas em causa e abolidas (ou pelo menos repensadas, por exemplo, porque não usar bandarilhas que se fixem no touro de outro modo que não espetando-as? Sempre se poupava algum sofrimento ao animal.)
O que o Homem deve ambicionar é uma sociedade mais inteligente, mais culta, com menos violência, injustiça e sofrimento. As tradições não devem nunca ser um obstáculo à prática de valores mais importantes.


Se não fossem as Touradas e os seus adeptos, a raça dos Touros Bravos já estava extinta.
Isto é evidentemente falso. Os Pandas e outros animais que correram risco de extinção nunca serviram para as Touradas e continuam a existir. Felizmente existem no nosso país reservas e espaços destinados a que determinadas raças subsistam caso os seus habitats naturais não o permitam. De qualquer forma com certeza de que os aficionados que dizem tanto amar os Touros se esforçariam para que estes sobrevivessem mesmo que não servissem para nada.
Independentemente de tudo isto, o mais importante é deixar claro que perpetuar uma espécie de animais apenas para que estes possam ser usados em espectáculos que se baseiam no seu sofrimento não é um acto nobre nem louvável. E muito menos favorável ao próprio animal. 

Quem não gosta ou não concorda, não veja.
Felizmente na nossa sociedade, as coisas não são assim. Se toda a gente fechasse os olhos às injustiças que se passam à sua volta o mundo seria certamente bastante diferente. É evidente que quando sabemos que se passa algo com que não concordamos, o remédio não é olhar para outro lado. Isso já muita gente faz em relação a demasiadas coisas.
Este argumento é tão despropositado que torna-se quase ridículo combatê-lo. No entanto pode dizer-se o seguinte:
Quem se insurge contra as touradas não o faz por prazer nem proveito próprio. Esse esforço deve, por isso, ser respeitado por quem consegue assistir ao espectáculo sem a mínima misericórdia e reflexão pelo que lá se passa.

Quem é contra as Touradas devia preocupar-se com outras coisas que também são feitas, nomeadamente o abandono de cães.
O Ser Humano tem a capacidade de se preocupar com várias coisas ao mesmo tempo. É uma espécie de dom. O facto de se ser contra as Touradas não invalida que a pessoa não se preocupe com muitas outras coisas que se fazem a outros animais. Não é por haver uma guerra no Iraque que não nos podemos preocupar com os assaltos ou com a inflação.
Há sempre coisas mais e menos graves, mas temos evidentemente o direito de nos preocupar com todas.
Certamente que quem critica as touradas insurge-se também contra o abandono de cães, lutas organizadas de animais e muitos outros assuntos.

Quem diz que é contra as touradas é hipócrita porque muitas vezes maltrata os cães e outros animais.
Esta é uma afirmação que não se baseia em nada (nem em lógica nem em senso comum) a não ser na experiência pessoal que eventualmente alguém terá. Pessoas e argumentos hipócritas haverá sempre, e não é por isso que se pode generalizar e tomar a parte pelo todo.
Ao contrário daquela afirmação, o razoável é supor que quem é contra as touradas preza os sentimentos dos animais de uma forma profunda e geral. E é normalmente isso que se verifica.

O touro praticamente não sofre com o que lhe é feito na arena.
É de facto difícil afirmar o que é que um Touro sente numa tourada. No entanto, os estudos científicos (http://articles.animalconcerns.org/ar-voices/archive/pain.html) feitos até agora apontam no sentido de que as agressões sofridas antes e durante as corridas sejam não só dolorosas mas incapacitantes. O touro fica com nervos e músculos rasgados, e a quantidade de sangue que perde continuamente enfraquece-o. Não parece ser sensato pensar que isto pode ser agradável para o Touro, ou mesmo indiferente.
O touro, tal como os outros mamíferos, ao ter sistema nervoso central tem capacidade para sentir dor, ansiedade, medo e sofrimento. E os sinais exteriores que mostra na arena denunciam essas emoções. Não é portanto razoável aceitar a ideia de que os Touros sofrem pouco numa tourada.

Os Touros nascem para serem lidados. São animais agressivos por natureza.
Uma coisa é o instinto de sobrevivência e auto-defesa de um animal, outra é o seu temperamento e personalidade. Embora o cortex cerebral de um Touro seja bastante mais básico do que o Humano (o que faz com que a sua personalidade seja igualmente menos complexa), cada animal tem o seu próprio temperamento, fruto, como no Homem, de factores genéticos associados a experiências vividas. O que todos têm em comum dentro da espécie é a sua técnica de defesa, que utilizam sempre que se sentem em perigo. Isto não deve ser confundido com a chamada "natureza" do animal. Com certeza que um Touro saudável deixado em paz no campo não anda a atacar tudo o que se mexe.

Se quem gosta, respeita a opinião de quem não gosta, porque é que quem é contra não respeita a opinião contrária?
Toda a gente respeita as opiniões de todos e na realidade a opinião de quem é favorável às touradas também deve ser respeitada. A sua prática é que não.
É fácil entender isto se pensarmos que Hitler era da opinião de que todos os Judeus deviam ser exterminados.
Mesmo que alguém tenha o direito a ter opiniões bizarras sobre qualquer assunto a sua colocação em prática não tem que ser respeitada nem tolerada se isso for ilegítimo. Se a prática de Touradas choca contra princípios considerados importantes por quem se lhes opõe, esta não tem que ser admitida.

A arte de tourear é tão bonita que seria uma pena perdê-la.
A “arte” de tourear pode de facto ser considerada bonita, ter grande mérito artístico e principalmente técnico. Mas perde toda a legitimidade quando necessita de fazer sofrer física e psicológicamente animais para ser executada. Tal sofrimento não se pode impôr a um animal que não tem nada a ver com o assunto. É injusto, prepotente e cobarde fazê-lo. Esta arte, se bonita, é injusta e cobarde e nenhuma arte pode ter mérito assim. Nesse aspecto penso que todos concordarão. É uma arte desonrosa, para utilizar a linha de valores da tauromaquia.
A arte de lutar até à morte dos gladiadores era considerada bastante mais honrosa e bonita por quem assistia. Mesmo essa acabou. Será também uma pena?

As Touradas enaltecem a nobreza do Touro.
Só uma mente muito ignorante ou distorcida pode realmente acreditar que os Touros quando vão para uma arena cumprem um qualquer desígnio divino.
A justificação de que o Touro é nobre por lutar pela vida numa tourada vem de quem alimenta o seu negócio e enriquece à custa deste espectáculo perverso mas rentável. A nobreza é um conceito inventado pelo homem. Na natureza todos os animais são iguais e todos lutam pela sobrevivência. Ninguém duvida de que o Homem, numa luta com as suas armas e condições consegue ser superior a qualquer outro animal. Provar isso numa luta desigual não é nobre, é estúpido.

Os argumentos contra as Touradas:
Não há qualquer justificação moral para se causar sofrimento a um animal para fins de entretenimento.
A recusa em ter consideração pelo sofrimento de um animal só pode ter origem em três factores: falta de cultura, falta de educação ou falta de carácter.
É muito simples, pouco mais há a dizer sobre o assunto.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Feminismo Islâmico

Recentemente realizei para a faculdade, a propósito da cadeira de Teorias e Políticas do Desenvolvimento, um trabalho de investigação sobre o feminismo nos países islâmicos. Pelas notícias que nos chegam regularmente nos jornais, todos nós (civilização ocidental) temos uma imagem clara de que as sociedades dos países de religião islâmica são bastante machistas, mas ao realizar este trabalho constatei que esta característica cultural está muito para além do que a maior parte das pessoas pensa. Quando ouvimos notícias de mulheres nesses países que são violadas/torturadas/mortas, temos tendência a pensar que são situações muito pontuais, perpetradas por extremistas e que de uma maneira geral são condenadas pelo resto da sociedade local. O mínimo que posso dizer como algo que retirei do trabalho foi que a luta feminista que se trava no Ocidente (que obviamente se justifica) é uma brincadeira de crianças quando comparada com a luta que se trava nos países muçulmanos. 

Uma das tarefas que me coube realizar (era um trabalho de grupo) prendeu-se com encontrar uma origem para o facto da sociedade ser tão machista. Porque razão as civilizações humanas são sempre, pelo menos na sua origem, patriarcais? Bem, na verdade o patriarcado está-nos nos genes. É algo que evoluiu com a nossa espécie como acontece com outros animais. Pense-se no leão por exemplo, onde um macho chefia uma família de várias fêmeas, sendo estas as encarregues de caçar e tratar das crias. 

Mas se assim é, então porque evoluiu esta situação nos países ocidentais, e nos islâmicos não? Em primeiro lugar, uma das características que distingue os seres humanos dos outros animais é a sua capacidade para domar e contrariar (ainda que com dificuldade) os seus instintos naturais. E como qualquer feminista vos dirá, ainda vivemos num mundo machista, embora nas últimas décadas tenham havido avanços extraordinários neste aspecto. 
O motivo principal que encontrei para justificar haver um atraso civilizacional tão grande nos países islâmicos acaba por recair na sua religião. O Islão é, como mostrarei à frente, uma religião que prega a diferença de direitos entre homens e mulheres. O cristianismo também tem características bastante machistas mas possui um livro sagrado muito mais aberto a interpretações, que podem evoluir à medida que a sociedade evolui secularmente. Mas o Islão oferece ordens claras e explicitas, sendo por isso muito mais propenso ao fundamentalismo. 

A investigação para este trabalho levou-me inclusive a ler o Alcorão, livro sagrado do Islão e a constatar que as ordens estão lá expressas de uma maneira surpreendentemente clara e declarativa. No que toca à relação entre homens e mulheres o capitulo 4, versículo 34 diz:

"Os homens estão por cima das mulheres, porque Deus favoreceu a uns em relação aos outros, e porque eles gastam parte das suas riquezas em favor das mulheres. As mulheres piedosas são submissas às disposições de Deus; são reservadas na ausência dos seus maridos no que Deus mandou ser reservado. Àquelas de quem temais desobediência, admoestai-as, confinai-as nos seus aposentos, castigai-as. Se vos obedecem, não procurareis pretexto para as maltratar. Deus é altíssimo, grandioso." 

Portanto desde logo, o homem tem o "direito" de castigar fisicamente a mulher. Não admira que a violência doméstica não seja crime na maior parte destes países. (Inclusivamente, é dado esse direito ao marido de bater na mulher e filhos menores no artigo 53 do Código Penal dos Emirado Árabes Unidos) 
Seria de esperar que as mulheres repudiassem esta sociedade e estes valores culturais mas, como descobri, a maior parte aceita a violência como algo natural e justificável. Na apresentação do trabalho, mostrei um gráfico de barras onde estavam representadas por país as percentagens de aceitação da violência doméstica por parte das mulheres (dados retirados das Nações Unidas e UNICEF) e países há onde 90% das mulheres acham razoável os maridos baterem nas mulheres. (Afeganistão e Jordânia por exemplo) 
Perguntaram-me nessa apresentação como podiam as mulheres aceitar? A resposta que eu dei foi a seguinte:

Elas aceitam porque desde pequenas foram ensinadas a acreditar e não duvidar de que o que está escrito no seu livro sagrado são palavras divinamente inspiradas e como tal têm de lhes obedecer para que Deus as recompense, se desobedecerem serão castigadas. Ora, se nesse livro está escrito tão explicitamente que os homens lhes podem bater, quem são elas para questionar a autoridade de Deus? Obviamente elas não gostam que lhes batam, mas da mesma maneira que uma criança mal-comportada não põe em causa a autoridade dos pais em lhe dar uma palmada mesmo não gostando, as mulheres não põem em causa o direito dos homens em lhes bater.  

Ao longo desse trabalho são abordados vários temas sobre a forma como as mulheres são tratadas nos países islâmicos. são temas que publicarei aqui futuramente e incluem: educação, emprego, questões legais, direitos de propriedade, crimes sexuais, leis sobre violência doméstica, idade para casar, casamentos inter-culturais, mutilação genital feminina, violência e segurança e códigos de vestuário.     

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Scolari: bom ou mau para Portugal?

O treinador brasileiro Luiz Felipe Scolari orientou a selecção nacional de Portugal entre 2003 e 2008. Depois de em 2002 ter sido campeão do mundo ao serviço do Brasil, nestes cinco anos em Portugal chegou à final do EURO 2004, às meias-finais do Mundial 2006 e aos quartos-de-final do EURO 2008. 
À primeira vista, parecem dados suficientes para afirmar que o registo de "Felipão" com a nossa selecção foi positivo. No entanto, existem diversas criticas apontadas a Scolari e há quem pense que a sua passagem fez mais mal que bem. Algumas destas pessoas são comentadores de futebol que gozam de bastante prestígio como por exemplo Luís Freitas Lobo, que considero um grande estudioso do futebol. De facto, há argumentos a favor e contra Scolari e o seu trajecto no nosso país. São estes argumentos que eu quero aqui analisar.

Em primeiro lugar, a minha posição nesta questão, é a seguinte: Scolari é um dos melhores seleccionadores do mundo. Digo seleccionador e não treinador porque são profissões muito diferentes, embora à primeira vista pareça a mesma coisa. O treinador de clube trabalha com os atletas todos os dias ao longo de 9-10 meses de competição por ano. Trabalha a sua equipa tacticamente de maneira a criar automatismo de jogo para serem posto em prática a cada fim-de-semana, às vezes duas vezes por semana. 
Mas um seleccionador só junta a sua equipa de dois em dois meses, e só participa em competições regulares de dois em dois anos (Mundiais ou Campeonatos Continentais). No pouco tempo que tem disponível para treinar com os jogadores, tem de procurar incutir-lhes a sua ideia de jogo, a jogadores que provavelmente não jogam juntos no dia-a-dia e que estão habituados a outros sistemas tácticos e maneiras de jogar. Tem que fazer isto numa semana só. O resto do tempo do seleccionador é passado a acompanhar a temporada dos seus jogadores seleccionáveis mas sem influência directa no seus desempenhos. 
Muitas vezes é impossível em tão pouco tempo passar uma ideia de jogo a uma equipa, e por isso aqui entra uma qualidade onde Scolari faz a diferença: a força motivacional e anímica pode fazer toda a diferença no futebol. Scolari pode não ser um mestre da táctica mas é um líder do balneário e os jogadores sabem-no.

Por muito que tenha doído não ter ganho o EURO 2004 quando chegámos à final em pleno Estádio da Luz, no nosso país, com uma geração fantástica de jogadores (Figo, Rui Costa, Deco, Pauleta, Jorge Andrade, Fernando Couto, Simão, e Ronaldo já a despontar) e ainda por cima com a Grécia, longe de ser uma grande selecção, a verdade é que considero a passagem de Scolari como o maior sucesso de sempre de um seleccionador ao serviço de Portugal. 

Com Scolari passou a ser normal Portugal participar nas grandes provas internacionais, algo que não se verificou durante décadas. O melhor registo de sempre de Portugal num Mundial (3.º lugar) recua a 1966 e ao grande Eusébio, mas depois disso levou 20 anos a conseguir qualificar-se de novo para um Mundial. Pouco antes de Scolari, em 2002, Portugal esteve no Mundial da Coreia e Japão onde apesar de contar com aquela que é considerada a "geração de ouro" no seu auge (Figo, Rui Costa, João Pinto, Sérgio Conceição, Vítor Baía, Jorge Costa, Paulo Sousa, Abel Xavier, Pauleta, Fernando Couto, Paulo Bento, etc.) não passou da fase de grupos. 
Eis que chega Scolari, opera uma verdadeira revolução na selecção, chamando jogadores jovens e descartando estas lendas em decadência, e leva Portugal à final de uma competição internacional. É verdade que perdemos e que nunca voltaremos a ter uma oportunidade tão boa para ganhar, mas estivemos lá! 
E aqui virão dizer "mas o que fica para a história são as vitórias, não os "quases"!". 
Então digam isso à Holanda dos anos 70 de Cruyff que não venceu título nenhum mas revolucionou o futebol até aos dias de hoje (o "tiki-taka" do Barcelona foi inspirado no "futebol total" dessa Holanda). No Mundial de 74 são mais o que se lembram dessa equipa do que dos vencedores (Alemanha). Há outros exemplos: Brasil de 1982, a Hungria dos anos 50, só para citar os mais relevantes. 

"Ah mas o Scolari limitou-se a usar a "espinha dorsal" do FC Porto que era nessa altura campeão europeu com Mourinho!"
Isso é verdade, o onze de Portugal contava com sete jogadores que tinham vencido provas europeias com o Porto (Nuno Valente, Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Paulo Ferreira, Costinha, Maniche e Deco) mas qual é o problema? 
Como já expliquei anteriormente, passar uma ideia de jogo para uma selecção não é fácil, mas se o seleccionador souber aproveitar os mecanismos de jogo já criados por jogadores nos seus clubes e implementá-los na selecção, isso não demonstra incapacidade do seleccionador, antes pelo contrário, demonstra inteligência. A Espanha foi campeã europeia (duas vezes) e mundial baseando-se no esquema do Barcelona (Jordi Alba, Piqué, Puyol, Busquets, Xavi, Iniesta, Pedro Rodríguez e David Villa) mas ninguém questionou a competência de Vicente Del Bosque. 
Geralmente as selecções que se baseiam numa equipa formada por jogadores do mesmo clube que tiveram sucesso vencendo títulos, saem-se melhor!

Depois da "tragédia grega" em 2004 Portugal por pouco não atingiu a final do Mundial 2006 (perdeu 1-0 a meia-final com a França de Zidane, que marcou através de um penalti muito discutível). Com uma selecção quase igual à do EURO, percebeu-se que aqueles eram os homens de Scolari e que apesar de não serem os mais fortes do mundo, tinham uma tal confiança em si próprios que conseguiam jogar olhos nos olhos com qualquer adversário e ganhar-lhe.Grande parte dessa mentalidade foi dada por Scolari. 2008 foi já uma fase descendente destes anos de festa, mas perder nos quartos-de-final com a Alemanha não é vergonha para nenhuma equipa.

A propósito do EURO 2008, num jogo da fase de qualificação frente à Sérvia, Scolari esteve nas bocas do mundo por ter agredido um jogador adversário (Ivica Dragutinovic) que lhe valeram alguns jogos de suspensão. Este episódio é muitas vezes apontado pelos "anti-Scolari" como mais um motivo pelo qual Scolari não devia ter continuado na selecção. 
Como é óbvio, considero o seu comportamento nessa situação lamentável e se a Federação tivesse decido rescindir a sua ligação com Scolari estaria plenamente justificada. Mas que relevância tem isso na qualidade técnica e táctica de Scolari? É por causa desse episódio que deixa de ser um bom seleccionador? Então também teremos de negar qualidade a Pepe, Quaresma, Eric Cantona, e já agora Sir Alex Ferguson que, segundo consta, lançou uma bota à cara de David Beckham que o obrigou a levar pontos na testa.

Para concluir, parece-me que muitas da críticas apontadas a Scolari são injustas. Teve coisas boas e coisas más, sem dúvida. Mas no global acho que as boas ultrapassaram as más e por isso me parece que o povo português lhe deve alguma gratitude e não ser "pobre e mal agradecido". 
Apesar dos seus críticos, considero que a generalidade dos portugueses concorda com a minha posição e vamos não esquecer que Luiz Felipe Scolari já foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique.