quinta-feira, 12 de junho de 2014

Scolari: bom ou mau para Portugal?

O treinador brasileiro Luiz Felipe Scolari orientou a selecção nacional de Portugal entre 2003 e 2008. Depois de em 2002 ter sido campeão do mundo ao serviço do Brasil, nestes cinco anos em Portugal chegou à final do EURO 2004, às meias-finais do Mundial 2006 e aos quartos-de-final do EURO 2008. 
À primeira vista, parecem dados suficientes para afirmar que o registo de "Felipão" com a nossa selecção foi positivo. No entanto, existem diversas criticas apontadas a Scolari e há quem pense que a sua passagem fez mais mal que bem. Algumas destas pessoas são comentadores de futebol que gozam de bastante prestígio como por exemplo Luís Freitas Lobo, que considero um grande estudioso do futebol. De facto, há argumentos a favor e contra Scolari e o seu trajecto no nosso país. São estes argumentos que eu quero aqui analisar.

Em primeiro lugar, a minha posição nesta questão, é a seguinte: Scolari é um dos melhores seleccionadores do mundo. Digo seleccionador e não treinador porque são profissões muito diferentes, embora à primeira vista pareça a mesma coisa. O treinador de clube trabalha com os atletas todos os dias ao longo de 9-10 meses de competição por ano. Trabalha a sua equipa tacticamente de maneira a criar automatismo de jogo para serem posto em prática a cada fim-de-semana, às vezes duas vezes por semana. 
Mas um seleccionador só junta a sua equipa de dois em dois meses, e só participa em competições regulares de dois em dois anos (Mundiais ou Campeonatos Continentais). No pouco tempo que tem disponível para treinar com os jogadores, tem de procurar incutir-lhes a sua ideia de jogo, a jogadores que provavelmente não jogam juntos no dia-a-dia e que estão habituados a outros sistemas tácticos e maneiras de jogar. Tem que fazer isto numa semana só. O resto do tempo do seleccionador é passado a acompanhar a temporada dos seus jogadores seleccionáveis mas sem influência directa no seus desempenhos. 
Muitas vezes é impossível em tão pouco tempo passar uma ideia de jogo a uma equipa, e por isso aqui entra uma qualidade onde Scolari faz a diferença: a força motivacional e anímica pode fazer toda a diferença no futebol. Scolari pode não ser um mestre da táctica mas é um líder do balneário e os jogadores sabem-no.

Por muito que tenha doído não ter ganho o EURO 2004 quando chegámos à final em pleno Estádio da Luz, no nosso país, com uma geração fantástica de jogadores (Figo, Rui Costa, Deco, Pauleta, Jorge Andrade, Fernando Couto, Simão, e Ronaldo já a despontar) e ainda por cima com a Grécia, longe de ser uma grande selecção, a verdade é que considero a passagem de Scolari como o maior sucesso de sempre de um seleccionador ao serviço de Portugal. 

Com Scolari passou a ser normal Portugal participar nas grandes provas internacionais, algo que não se verificou durante décadas. O melhor registo de sempre de Portugal num Mundial (3.º lugar) recua a 1966 e ao grande Eusébio, mas depois disso levou 20 anos a conseguir qualificar-se de novo para um Mundial. Pouco antes de Scolari, em 2002, Portugal esteve no Mundial da Coreia e Japão onde apesar de contar com aquela que é considerada a "geração de ouro" no seu auge (Figo, Rui Costa, João Pinto, Sérgio Conceição, Vítor Baía, Jorge Costa, Paulo Sousa, Abel Xavier, Pauleta, Fernando Couto, Paulo Bento, etc.) não passou da fase de grupos. 
Eis que chega Scolari, opera uma verdadeira revolução na selecção, chamando jogadores jovens e descartando estas lendas em decadência, e leva Portugal à final de uma competição internacional. É verdade que perdemos e que nunca voltaremos a ter uma oportunidade tão boa para ganhar, mas estivemos lá! 
E aqui virão dizer "mas o que fica para a história são as vitórias, não os "quases"!". 
Então digam isso à Holanda dos anos 70 de Cruyff que não venceu título nenhum mas revolucionou o futebol até aos dias de hoje (o "tiki-taka" do Barcelona foi inspirado no "futebol total" dessa Holanda). No Mundial de 74 são mais o que se lembram dessa equipa do que dos vencedores (Alemanha). Há outros exemplos: Brasil de 1982, a Hungria dos anos 50, só para citar os mais relevantes. 

"Ah mas o Scolari limitou-se a usar a "espinha dorsal" do FC Porto que era nessa altura campeão europeu com Mourinho!"
Isso é verdade, o onze de Portugal contava com sete jogadores que tinham vencido provas europeias com o Porto (Nuno Valente, Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Paulo Ferreira, Costinha, Maniche e Deco) mas qual é o problema? 
Como já expliquei anteriormente, passar uma ideia de jogo para uma selecção não é fácil, mas se o seleccionador souber aproveitar os mecanismos de jogo já criados por jogadores nos seus clubes e implementá-los na selecção, isso não demonstra incapacidade do seleccionador, antes pelo contrário, demonstra inteligência. A Espanha foi campeã europeia (duas vezes) e mundial baseando-se no esquema do Barcelona (Jordi Alba, Piqué, Puyol, Busquets, Xavi, Iniesta, Pedro Rodríguez e David Villa) mas ninguém questionou a competência de Vicente Del Bosque. 
Geralmente as selecções que se baseiam numa equipa formada por jogadores do mesmo clube que tiveram sucesso vencendo títulos, saem-se melhor!

Depois da "tragédia grega" em 2004 Portugal por pouco não atingiu a final do Mundial 2006 (perdeu 1-0 a meia-final com a França de Zidane, que marcou através de um penalti muito discutível). Com uma selecção quase igual à do EURO, percebeu-se que aqueles eram os homens de Scolari e que apesar de não serem os mais fortes do mundo, tinham uma tal confiança em si próprios que conseguiam jogar olhos nos olhos com qualquer adversário e ganhar-lhe.Grande parte dessa mentalidade foi dada por Scolari. 2008 foi já uma fase descendente destes anos de festa, mas perder nos quartos-de-final com a Alemanha não é vergonha para nenhuma equipa.

A propósito do EURO 2008, num jogo da fase de qualificação frente à Sérvia, Scolari esteve nas bocas do mundo por ter agredido um jogador adversário (Ivica Dragutinovic) que lhe valeram alguns jogos de suspensão. Este episódio é muitas vezes apontado pelos "anti-Scolari" como mais um motivo pelo qual Scolari não devia ter continuado na selecção. 
Como é óbvio, considero o seu comportamento nessa situação lamentável e se a Federação tivesse decido rescindir a sua ligação com Scolari estaria plenamente justificada. Mas que relevância tem isso na qualidade técnica e táctica de Scolari? É por causa desse episódio que deixa de ser um bom seleccionador? Então também teremos de negar qualidade a Pepe, Quaresma, Eric Cantona, e já agora Sir Alex Ferguson que, segundo consta, lançou uma bota à cara de David Beckham que o obrigou a levar pontos na testa.

Para concluir, parece-me que muitas da críticas apontadas a Scolari são injustas. Teve coisas boas e coisas más, sem dúvida. Mas no global acho que as boas ultrapassaram as más e por isso me parece que o povo português lhe deve alguma gratitude e não ser "pobre e mal agradecido". 
Apesar dos seus críticos, considero que a generalidade dos portugueses concorda com a minha posição e vamos não esquecer que Luiz Felipe Scolari já foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique.                

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