terça-feira, 26 de agosto de 2014

A alma

Na minha publicação anterior sobre as experiências extracorporais, falei sobre a inverosímil ideia de a alma deixar o corpo físico, e depois regressar a ele durante uma experiência à beira da morte. 
Talvez devesse ter começado por publicar primeiro este texto sobre a "alma" que só por si tem muito que se lhe diga. Parece-me óbvio que a alma ou espírito é, não uma ilusão como no caso anterior, mas uma pura invenção. 
Basicamente, o que a maior parte das pessoas entende por "alma", é um espírito imaterial que reside no corpo humano e que ao contrario deste é imortal. Quando uma pessoa morre, é apenas o corpo físico que expira, pois a alma vai, dependendo da crença para o paraíso (céu), purgatório, inferno, ou simplesmente para o mundo dos espíritos.  
Isto é a ideia básica, visto que nunca ninguém consegue concordar numa definição específica e concisa.

Pois bem, a primeira coisa que salta à vista é: como exactamente é que este espírito interage com o corpo? Se é imaterial, então coisas físicas (ou materiais) não podem interagir com ela, no entanto de alguma forma ela interage com o cérebro e vice-versa. A ciência já dissecou o corpo humano até à exaustão mas nunca encontrámos lá nenhuma "alma". (Mas presumo que quem acredite nelas as imagine invisíveis, por isso adiante)

O ponto seguinte é: exactamente que informação é que uma alma contém? A ciência já provou e demonstrou que partes específicas do nosso cérebro são responsáveis pelas emoções, memórias, pensamentos, além obviamente de todo o comando das funções corporais. Há, como se sabe, numerosos casos de pessoas que sofrem danos cerebrais e perdem memórias ou mudam completamente de personalidade. Portanto, podemos assumir que a suposta alma não tem nada desta informação, pois se é imaterial, então certamente não seria afectada por um acidente que danificasse o cérebro. Além disso, se a alma contivesse as nossas memórias, então qual era o propósito de as ter também no cérebro físico? (Talvez fosse só um backup). Então quem tem amnésia ou alzheimer tem um problema no cérebro ou na alma?

Isto já para não dizer que o uso de drogas químicas podem afectar as nossas memórias e emoções, portanto esses químicos estão a modificar as propriedades da alma? E as pessoas que têm dupla personalidade? Têm duas almas dentro do corpo? 

Outro aspecto interessante: há uns tempos tive um "mini-debate" com um americano na secção de comentários de um vídeo no youtube sobre espíritos e casas assombradas. A certa altura questionei-o se os animais tinham alma. Esta é uma pergunta que divide muitas teologias. No antigo testamento, parece não haver diferença entre o espírito dos animais e dos homens, mas isto pode ser resultado de traduções enganosas feitas ao longo dos séculos para se adequar ao modelo teológico vigente. No judaísmo e cristianismo modernos os animais não têm alma. 

Eu questionei-o da seguinte maneira: 
Tendo em conta que o homem é um animal que foi evoluindo ao longo de milhões de anos como todos os outros (assumi que ele não disputava a factualidade da teoria evolutiva de selecção natural. Embora tratando-se de um americano, eu não devesse assumir isso tão levianamente), então a partir de que momento na nossa evolução é que adquirimos a alma? Porque obviamente um australopitecos não deu à luz um homo Sapiens já com alma incluída. Se os antepassados do homem podiam ter alma, então também outros animais poderiam como os actuais macacos e cães. E porquê parar aí? Porquê assumir que só os mamíferos podem ter alma? Que tal os pássaros, os répteis e os insectos? Mas já que estamos nos insectos porque não ir até ás plantas? Não, melhor ainda, porque não consideramos simplesmente que todos os seres vivos têm alma? Afinal, toda a vida na terra pode ser regredida até um antepassado comum.
Mas isso levanta um problema: se considerarmos que todos os seres vivos têm alma, então somos forçados a aceitar que os microorganismos como células e bactérias também a têm. E por acaso, o ser humano é composto por milhões de células. Então o homem não teria uma alma individualizada e sua mas sim milhões de mini-almas das células que o compõem. (como podem ver, quando falamos de almas, a conversa torna-se algo ridícula muito rapidamente). 
Ele respondeu-me que só um cérebro poderoso e com grande capacidade de processamento poderia ter uma alma. 
(Que conveniente escolher uma característica claramente humana como factor diferenciador!) Saltando a parte óbvia de que definir cérebro poderoso é problemático e que capacidade de processamento é demasiado abstracto já que há animais que processam melhor certas informações que o ser humano, (por exemplo, vários estudos já demonstraram que o chimpanzé tem uma memória de curto prazo muito superior à humana), ele caiu numa armadilha óbvia: ao afirmar que a alma só se produz na presença de um cérebro poderoso, está forçosamente a afirmar que pessoas com danos cerebrais ou que nasceram com deficiências e atrasos mentais não têm alma! O mesmo sendo verdade de pessoas em estado vegetativo. 

Confesso que gostava de saber qual teria sido a sua resposta mas depois disto ele parou de me responder. Retire-se daí as conclusões que se queira. 

Portanto, a minha conclusão é: não existe nenhuma alma ou espírito, é simplesmente uma invenção criada pelo ser humano dado o seu medo de pensar que a morte é o fim. Muitos antropólogos já sugeriram que inventámos a alma como tentativa de perceber o que acontece quando morremos. Uma das primeiras observações é a de que o morto já não respira. Não é coincidência que a origem etimológica da palavra alma ou espírito em várias línguas venha de "ar" ou "vento". Pensar que as nossas memórias e personalidade se mantêm intactas após a morte e que podemos rever antigos conhecidos dá-nos conforto para enfrentarmos a trágica realidade da morte, mas obviamente não fazem dessas ideias verdades.                        

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