sábado, 20 de dezembro de 2014

Prós e Contras: Deus tem futuro? - Reacções

Ainda no rescaldo da minha última publicação sobre o Prós e Contras de 8 de Dezembro, gostaria aqui de analisar o comentário que o Padre Fernando Calado Rodrigues fez ao programa na sua crónica "Ressonâncias" no Correio da Manhã do dia 12 de Dezembro (2014) com o título "Deus existe?"

Nessa crónica, a afirmação destacada foi "Em todo o ateu habita um crente, que por vezes leva a melhor e então acontece a conversão." (e embora não tenha sido destacada, logo a seguir ele diz "e todo o crente é assaltado por dúvidas que o podem levar ao abandono da fé.") 

Ora bem, esta ideia avançada pelo Padre de que em todo o ateu existe um crente não é nova, longe disso, é apenas uma reformulação do antiquíssimo argumento que diz que os ateus sabem que Deus existe, simplesmente o negam.
A palavra "ateu" parece suscitar nas pessoas a ideia de ser um dogma ou uma forma de vida como dizer que se é marxista ou republicano ou democrata quando na verdade é apenas a etiqueta dada a uma pessoa que tem uma opinião concreta num assunto muito específico: não acredita na existência de Deus(es). Nada mais que isso. Não tem mais nada associado, não implica acreditar na evolução natural, ser fã número um da ciência e repudiar tudo o que é religioso. Portanto, dizer que um ateu é um crente que não quer "sair do armário" não faz mais sentido que dizer que quem nega a existência de fadas sabe que elas existem, só não quer admitir. 
Para os crentes esta comparação pode não parecer adequada, mas teoricamente para os ateus ajusta-se já que não acredita nem num nem noutro, são igualmente inexistentes.
Dizer que "por vezes (o crente) leva a melhor e acontece a conversão." não faz muito sentido, já que a larga maioria das pessoas que se proclamam ateias não o faz só para ser do contra, mas porque não encontram bons motivos ou provas da existência de Deus. Portanto não se trata de termos um crente dentro de nós a lutar para sair, trata-se de, se confrontados com provas convincentes, mudarmos de opinião.

Depois outra questão é a própria conversão. Aos olhos do Padre, parece óbvio que se alguém descobrir Deus, vai imediatamente converter-se ao cristianismo, quando na verdade, a religião que se abraça é geralmente a mais relevante na comunidade onde estamos inseridos, em Portugal é claramente o cristianismo, mas se algum ateu que vive na Indonésia passa a ser crente, escolherá provavelmente o islamismo. E sendo religiões antagónicas, como pode o Padre, ou quem quer que seja, dizer que a dele é que é a correta e não a outra? 

E isto partindo do principio que o novo crente se associa a alguma religião, pois, como se sabe, acreditar em Deus não implica estar afiliado a nenhuma congregação. 
Vamos supor que um ateu um dia tem uma epifania e passa a acreditar na existência de uma entidade inteligente supra-natural que controla as leis do universo. Como é que passamos disto para o cristianismo, que diz que Deus se preocupa com os nossos assuntos pessoais, nomeadamente com quem vamos para a cama, que tipo de roupa vestimos, o que pensamos, e que há muitos anos criou o homem e a mulher e disse para eles não comerem uma fruta que eles comeram e por isso amaldiçoaram a humanidade para sempre, mas Deus veio à Terra no seu alter-ego e filho Jesus Cristo para morrer (e depois ressuscitar) pelos nossos pecados para que Deus nos perdoasse e que se não seguirmos os seus ensinamentos passaremos a eternidade a sofrer...mas ele ama-nos. 
Como é que alguém pode passar da ideia de uma entidade superior para estas histórias mitológicas que todas as religiões têm?
Se alguém disser hoje que acredita em Zeus que é o rei dos Deuses que vivem no topo do Monte Olimpo e que tem um filho semideus chamado Hércules toda a gente achará ridículo. Mas vamos não esquecer que os deuses gregos foram idolatrados durante cerca de 3000 anos, mais que tempo que o cristianismo, milhões de pessoas e gerações viveram e morreram a acreditar neles. As histórias bíblicas são igualmente fantasiosas, quem sabe se daqui a mil anos, ou até menos, não acharemos o cristianismo também ridículo?         

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