segunda-feira, 19 de maio de 2014

Futebol

O desporto que mais gosto de ver ser jogado e que de uma maneira geral mais acompanho é de longe o futebol. Estou longe de ser o único, já que se trata do desporto com mais atletas e espectadores a nível mundial. Estima-se que haja no mundo cerca de 3,5 mil milhões de fãs de futebol o que, a ser verdade, equivale a sensivelmente metade da população mundial. 

Mas afinal, o que tem de tão especial? Uma expressão já batida diz que é "apenas um grupo de homens a correr atrás de uma bola." 
Mas não é só isso, não pode ser. Na sua essência, no jogo em si, até não está longe da verdade. Mas até das mais simples regras, como ver quem consegue fazer a bola entrar mais vezes numa rede no fim do campo, se podem criar histórias extraordinárias. Histórias que nos falam da sociedade, da amizade, do respeito, da raiva, da tristeza, de heróis, de vilões, de sacrifícios, de inteligência, de coragem, do ser humano. 
Já César Menotti (treinador argentino, campeão do mundo em 1978) dizia:

"Através da forma de jogar das minhas equipas, eu falo da sociedade em que gostaria de viver." 

Uma das belezas deste desporto, é que na sua base é tão simples, que qualquer pessoa o consegue perceber e ao mesmo tempo tão complexo que se torna difícil de abordar. 
Uma discussão, como a que se ouve nos cafés, sobre futebol, pode ir desde se o Jorge Jesus fez bem ao não ter posto o Óscar Cardozo a jogar, até se a filosofia de jogo do Barcelona se adequa à mentalidade independentista catalã. (Obviamente discussões como esta última são bem mais raras e geralmente não acontecem nos cafés) Tudo isto é claro para os amantes do futebol. 

Um caso diferente é o dos adeptos fanáticos cujo único pensamento é simplesmente se o seu clube ganha ou não, tudo o resto é irrelevante. Para mim um adepto fanático, é aquele que quando a sua equipa perde fica doente, é aquele que quando uma equipa rival joga uma final europeia contra uma equipa estrangeira torce pelos estrangeiros só para o rival não ganhar, é aquele que desculpa o insucesso da sua equipa e o sucesso dos rivais com nada mais que culpa dos árbitros, no fundo, é aquele que por mais que tente não consegue ser minimamente imparcial. 
Não consigo entender esta forma de ver futebol. Para mim ver futebol é diversão, porque havia de ficar doente se a minha equipa perder? A nível pessoal, no dia-a-dia, não ganho nem perco nada quer a minha equipa ganhe ou perca. Porque haveria de torcer pelos estrangeiros se uma vitória de um rival é bom para o meu país e indirectamente para o meu clube? Porque haveria de me desculpar com arbitragens se a minha equipa estiver a jogar mal? Eu não quero ser mais que os outros, mas considero-me um adepto de futebol imparcial porque para mim, o clubismo está abaixo do prazer de ver futebol, isto é, porque haveria eu sequer de apoiar um clube se não gostasse primeiro do futebol em si? É claro que se o Benfica estiver a 5 minutos do fim a ganhar 1-0 uma final europeia só quero que faça anti-jogo, mas isso é natural. Quando digo que gosto de ver futebol, não me refiro forçosamente a futebol bonito. Tenho noção que não é possível uma equipa ganhar sempre 5-0 e dar espectáculo. Afinal, estamos a falar de jogos entre profissionais altamente competitivos. É por isso que não concordo quando dizem que a equipa X, teoricamente mais forte, tem a obrigação de ganhar à equipa Y. Para mim, no desporto em geral a única obrigação dos atletas é fazer tudo o que está ao seu alcance, dentro das regras do jogo, para terem sucesso. Não se pode exigir vitórias porque se assim fosse o desporto deixava de fazer sentido. Claro que é uma evidencia que se os atletas derem o seu melhor, as equipas mais fortes ganham quase sempre, mas a imprevisibilidade é uma das atracções do desporto.         

Mas para quem não gosta de futebol, e obviamente que nem tem de gostar, (gostos não se discutem) eu percebo que deve ser frustrante e irritante uma enorme parte dos noticiários serem ocupados pelo futebol. Quando ocorre alguma conquista ou acontecimento relevante no futebol, como por exemplo quando o Benfica foi campeão, todos os canais de notícias passaram horas a fio de reportagem sobre a festa. De facto, concordo que se fala demasiado de futebol, devia ser mais equilibrado e regrado. 
Mas também acho que deve haver uma compreensão por parte de quem não gosta, de que o futebol é um fenómeno social, porventura o mais significativo no nosso país (que mais pode levar milhares pessoas a encher completamente o Marquês de Pombal como se assistiu), que influencia a cultura, a economia, a política e até a forma de pensar das pessoas. Contribui para a identidade de um país e pode aumentar ou diminuir a auto-estima de um povo inteiro. 

Podia citar alguns exemplos destes efeitos para os mais cépticos. 

Por exemplo, no futebol é possível observar-se o fenómeno da globalização em todo o seu esplendor: em 1970, jogar com uma equipa sueca ou holandesa significava jogar com homens muito altos, louros e que, regra geral, faziam do seu físico a principal arma de jogo por não possuírem tanta técnica com os pés. Actualmente é normalíssimo ver jogar nestas equipas brasileiros negros com 1,70m e com uma técnica e finta extraordinárias. Isto acontece inclusivamente, nas selecções nacionais. 

Quanto ao impacto económico, já houve estudos que afirmaram que quando o Benfica era campeão aumentava ligeiramente a economia do país. Não tenho competências para avaliar até que ponto isso é verdade, mas não haja dúvidas que organizar o EURO 2004 teve efeitos (geralmente considerados negativos) na economia portuguesa, mas receber a final da Liga dos Campeões no Estádio da Luz pode ter efeitos positivos ao atrair adeptos estrangeiros e patrocínios. 

Por outro lado, ter eventos como estes passam uma imagem positiva da capacidade de Portugal em organizar grandes eventos desportivos. 
Outro exemplo incontornável é a marca CR7, muitíssimo valiosa e invariavelmente associada a Portugal. 

Outro aspecto importante: mesmo sendo um país relativamente pequeno com apenas 10,5 milhões de habitantes, conseguimos a dada altura ter o melhor jogador do mundo (Cristiano Ronaldo), o melhor treinador do mundo (José Mourinho), o melhor árbitro do mundo (Pedro Proença, que apesar das críticas de que é alvo dentro do país, a nível europeu, chegou a arbitrar a Final da Champions e do EURO no mesmo ano) e o melhor agente desportivo do mundo (Jorge Mendes), tudo em simultâneo. Não deixa de ser um motivo de enorme orgulho nacional, especialmente para os muitos emigrantes por esse mundo fora.

Podia escrever um livro sobre os vários impactos do futebol fora do campo, mas acho que estes exemplos são suficientes para se perceber onde quero chegar.  

Este texto tem também uma função de introdução a futuras publicações sobre futebol que farei neste blog, e aqui quis deixar uma ideia da maneira como eu vejo o futebol. Como é óbvio não digo que é a maneira correcta, mas é a minha. E como em todas as minhas opiniões, estou aberto ao debate.   

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