sábado, 17 de maio de 2014

Religião

Eu sou ateu, e ao escrever sobre religião (um tema pelo qual me sinto bastante interessado) sujeito-me a ser mal interpretado, considerado ofensivo, intolerante e insensível. 
Eu não tenho nada contra pessoas religiosas, aliás respeito todas as pessoas por igual (pelo menos até me darem motivos para não o fazer) e tolero qualquer crença/ideologia que defendam desde que não tenha efeitos negativos na vida dos outros. Posso não respeitar a ideologia em si mas respeito o direito pessoal de a ter. 

Um exemplo do que estou a dizer pode ser o seguinte: imaginem que têm um amigo(a) que conhecem à muitos anos e de quem gostam muito. Uma pessoa verdadeiramente simpática de quem nunca tiveram razão de queixa. Imaginem que algum dia, por acaso durante uma conversa, essa pessoa diz que concorda e sempre concordou com a ideologia Nazi (uso este exemplo porque é fácil à maioria das pessoas reprovarem tal hipótese). Repare-se que nada no seu comportamento ou maneira como trata os outros poderia indiciar a sua ideologia. 
Mesmo sabendo que defendia o nazismo não conseguiriam continuar a respeitar essa pessoa? Evidentemente não teriam de respeitar o nazismo, mas se o vosso amigo nunca fizera nada de mal e a sua crença não influenciá-se negativamente a sua vida ou dos outros, porquê mudar de opinião em relação à pessoa? (Existem situações em que saber a opinião das pessoas em relação a certos assuntos é importante uma vez que pode trazer efeitos nefastos, mas isso fica para outra publicação)  

Se eu, enquanto ateu, rejeita-se as pessoas pelas suas crenças, então teria de rejeitar todos os cristãos uma vez que segundo a sua crença, eu mereço ser torturado para sempre no inferno.

("Quem crê nele não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus." (João 3:18))

Como é óbvio não rejeito os cristãos porque mesmo que eles acreditem nesta premissa, ela não afecta a minha vida no dia-a-dia ou pelos menos, não me ocorre nada de negativo por me dar com pessoas com essas crenças. 

Então, se eu respeito as pessoas religiosas, mesmo não concordando com elas, porque razão me sujeito a ser considerado ofensivo ou intolerante por falar na sua religião? 
Isto leva-me a outra questão que é o respeito que a religião merece. Para abordar esta questão vou citar Richard Dawkins e Douglas Adams:

"Há uma ideia generalizada, que quase todos na nossa sociedade aceitam - incluindo os não-religiosos -, de que a fé religiosa é particularmente vulnerável à ofensa e que deve ser protegida por uma invulgarmente grossa muralha de respeito.
(Richard Dawkins, "A Desilusão de Deus")

"A religião tem no seu âmago algumas ideias a que chamamos sagradas ou santas ou seja o que for. O que significa é o seguinte: "Aqui está uma ideia ou uma noção sobre a qual não nos é permitido falar mal; pura e simplesmente. Porquê? - porque não." Se alguém vota num partido com o qual não concordamos, somos livre de discuti-lo tanto quanto nos apetecer, todos terão algo a dizer, mas ninguém se sentirá agastado por isso. Se alguém acha que os impostos devem subir ou descer, somos livres de ter uma opinião. Mas, por outro lado, se alguém diz que "não devo sequer rodar o interruptor de uma lâmpada ao sábado", nós dizemos: "Respeito isso."
Porque razão é perfeitamente legítimo apoiar o Partido Trabalhista ou o Partido Conservador, republicanos ou democratas, este ou aquela modelo económico, Macintosh em vez de Windows, Coca-Cola em vez de Pepsi, - mas ter uma opinião sobre a origem do universo, sobre quem criou o universo...não porque é sagrado?... Estamos habituados a não questionar as ideias religiosas. (...) Mesmo assim, quando olhamos racionalmente para a questão, não há razão para que estas ideias não possam ser discutidas como quaisquer outras, só que de alguma forma concordámos entre nós que o não devem ser.
(Douglas Adams num discurso proferido em Cambridge pouco antes da sua morte em 2001) 

Vivemos, felizmente, num país com liberdade de expressão. Portanto não vejo qualquer problema em expressar a minha opinião sobre um tema do qual gosto de falar. Este texto, serve como que uma introdução a futuras publicações que com certeza farei sobre religião. Se alguma vez eu parecer demasiado ofensivo ou insensível, é porque me sinto verdadeiramente indignado com a ideologia que estou a atacar, mas sempre com a noção que não estou a atacar os seus defensores. Outro aspecto, é que ao apresentar criticas, eu não estou simplesmente a dizer "eu estou certo e tu estás errado" estou meramente a apresentar argumentos que me parecem convincentes, mas cuja reposta e possível refutação eu saúdo de bom grado. Um vez li uma frase de Donald Miller (escritor e pensador cristão) que dizia: 

"You never question the truth of something until you have to explain it to a skeptic." 

Muitas pessoas religiosas passam uma vida sem nunca ser questionadas sobre o que pensam sobre a sua religião, ou porque só se dão com pessoas da mesma religião ou porque simplesmente não falam sobre isso. 
Ter uma mente aberta para o debate é, na minha opinião, uma das maiores qualidades que o ser humano pode ter. E do ponto de vista religioso, se tiver a confiança inabalável de que aquilo em que acredita é verdade, então não vejo o que tem a temer em debater essas ideias. Aliás, na Bíblia está escrito explicitamente que os fieis não devem temer responder aos cépticos:

"Não temam as ameaças dos homens nem se deixem perturbar, e, nos vossos corações, honrem a Cristo como Senhor. Estejam sempre preparados para responder a todos os que vos interrogarem acerca da esperança que têm. Mas façam-no com gentileza e respeito, tendo a consciência tranquila." 
(1 Pedro 3:14 a 3:16)    

(Já agora aproveito para esclarecer que sou ateu em relação a todas as religiões. (Obviamente, caso contrário não me identificava como ateu mas como seguidor da religião em causa) Quis fazer este esclarecimento porque em futuras publicações poderá notar-se que falo, que é como quem diz critico, mais o cristianismo que outras religiões, podendo dar a impressão que estou a insinuar que as outras são melhores. Não se trata disso, todas têm defeitos e porventura qualidades, eu não subscrevo nenhuma. O motivo por que falarei mais do cristianismo é porque é a religião dominante no nosso país (e em todo o Ocidente) e são com seguidores desta religião que eu lido no dia-a-dia. Nem sequer conheço pessoalmente nenhum muçulmano, judeu, hindu, budista, etc. (não que me importasse, antes pelo contrário). De resto, mesmo que em menor escala, pretendo abordar outras religiões em futuras publicações, nomeadamente o Islamismo, pelo qual também nutro especial curiosidade. Fica o esclarecimento.) 
         

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