Ainda no rescaldo da minha última publicação sobre o Prós e Contras de 8 de Dezembro, gostaria aqui de analisar o comentário que o Padre Fernando Calado Rodrigues fez ao programa na sua crónica "Ressonâncias" no Correio da Manhã do dia 12 de Dezembro (2014) com o título "Deus existe?"
Nessa crónica, a afirmação destacada foi "Em todo o ateu habita um crente, que por vezes leva a melhor e então acontece a conversão." (e embora não tenha sido destacada, logo a seguir ele diz "e todo o crente é assaltado por dúvidas que o podem levar ao abandono da fé.")
Ora bem, esta ideia avançada pelo Padre de que em todo o ateu existe um crente não é nova, longe disso, é apenas uma reformulação do antiquíssimo argumento que diz que os ateus sabem que Deus existe, simplesmente o negam.
A palavra "ateu" parece suscitar nas pessoas a ideia de ser um dogma ou uma forma de vida como dizer que se é marxista ou republicano ou democrata quando na verdade é apenas a etiqueta dada a uma pessoa que tem uma opinião concreta num assunto muito específico: não acredita na existência de Deus(es). Nada mais que isso. Não tem mais nada associado, não implica acreditar na evolução natural, ser fã número um da ciência e repudiar tudo o que é religioso. Portanto, dizer que um ateu é um crente que não quer "sair do armário" não faz mais sentido que dizer que quem nega a existência de fadas sabe que elas existem, só não quer admitir.
Para os crentes esta comparação pode não parecer adequada, mas teoricamente para os ateus ajusta-se já que não acredita nem num nem noutro, são igualmente inexistentes.
Dizer que "por vezes (o crente) leva a melhor e acontece a conversão." não faz muito sentido, já que a larga maioria das pessoas que se proclamam ateias não o faz só para ser do contra, mas porque não encontram bons motivos ou provas da existência de Deus. Portanto não se trata de termos um crente dentro de nós a lutar para sair, trata-se de, se confrontados com provas convincentes, mudarmos de opinião.
Depois outra questão é a própria conversão. Aos olhos do Padre, parece óbvio que se alguém descobrir Deus, vai imediatamente converter-se ao cristianismo, quando na verdade, a religião que se abraça é geralmente a mais relevante na comunidade onde estamos inseridos, em Portugal é claramente o cristianismo, mas se algum ateu que vive na Indonésia passa a ser crente, escolherá provavelmente o islamismo. E sendo religiões antagónicas, como pode o Padre, ou quem quer que seja, dizer que a dele é que é a correta e não a outra?
E isto partindo do principio que o novo crente se associa a alguma religião, pois, como se sabe, acreditar em Deus não implica estar afiliado a nenhuma congregação.
Vamos supor que um ateu um dia tem uma epifania e passa a acreditar na existência de uma entidade inteligente supra-natural que controla as leis do universo. Como é que passamos disto para o cristianismo, que diz que Deus se preocupa com os nossos assuntos pessoais, nomeadamente com quem vamos para a cama, que tipo de roupa vestimos, o que pensamos, e que há muitos anos criou o homem e a mulher e disse para eles não comerem uma fruta que eles comeram e por isso amaldiçoaram a humanidade para sempre, mas Deus veio à Terra no seu alter-ego e filho Jesus Cristo para morrer (e depois ressuscitar) pelos nossos pecados para que Deus nos perdoasse e que se não seguirmos os seus ensinamentos passaremos a eternidade a sofrer...mas ele ama-nos.
Como é que alguém pode passar da ideia de uma entidade superior para estas histórias mitológicas que todas as religiões têm?
Se alguém disser hoje que acredita em Zeus que é o rei dos Deuses que vivem no topo do Monte Olimpo e que tem um filho semideus chamado Hércules toda a gente achará ridículo. Mas vamos não esquecer que os deuses gregos foram idolatrados durante cerca de 3000 anos, mais que tempo que o cristianismo, milhões de pessoas e gerações viveram e morreram a acreditar neles. As histórias bíblicas são igualmente fantasiosas, quem sabe se daqui a mil anos, ou até menos, não acharemos o cristianismo também ridículo?
"A descoberta consiste em ver o que todos viram e em pensar o que ninguém pensou."
sábado, 20 de dezembro de 2014
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Prós e Contras: Deus tem futuro?
No passado dia 8 de Dezembro, passou na RTP mais um programa de "Prós e Contras", desta vez com a questão "Deus tem futuro?" como tema. Vi com muita atenção o programa e devo dizer que apesar de algo decepcionante, foi exactamente aquilo que eu esperava que fosse: uma sucessão de declarações pseudo-filosóficas, ambíguas e vagas, sempre proferidas com mil e um cuidados para não ferir a susceptibilidade dos restantes comentadores e assim que alguém destoou deste guião é imediatamente etiquetado como fundamentalista, inculto, ignorante e até mentiroso.
Olhando, em primeiro lugar, para a escolha do painel, tivemos os três principais monoteísmos representados: o cristianismo através do Padre Anselmo Borges e da Pastora da Igreja Evangélica Presbiteriana Maria Eduarda Titosse, o islamismo através do Sheikh David Munir e o judaísmo através de Joshua Ruah. Tivemos depois um convidado para fazer o papel de autoridade cientifica imparcial, o professor de física Carlos Fiolhais. E por fim, não poderia faltar num debate sobre Deus, um ateu: o artista plástico e pintor Pedro Cabrita Reis. A juntar a estes, e como sempre acontece, houve uns quantos convidados na plateia que tiveram direito a alguns minutos de antena. Na minha opinião acho que teria sido interessante se tivessem convidado um budista e um politeísta (por exemplo hindu) para dar uma perspectiva diferente daquela a que estamos habituados com as religiões abraâmicas.
Perante este cenário, e tendo em conta que a questão do programa era se "Deus (em abstracto) tem futuro?" e não propriamente as divisões e interpretações entre as várias religiões, era óbvio que o debate se iria polarizar em duas correntes: os religiosos a acharem que sim (nem poderia ser de outra forma) e os ateus a acharem que não.
E de facto foi isso que aconteceu. Quando a conversa não era apenas declarações politicamente correctas mas um "debate" com argumentos (embora diga-se que nesse departamento foram todos bastante fracos, o Matt Dillahunty não teria dificuldade em levar os intervenientes ao desespero) era quase sempre invariavelmente entre o padre e o ateu. O Padre Anselmo Borges chegou até a utilizar o mais básico e patético argumento para Deus: "Não consegue provar que ele não existe." Eu nem queria aqui mencioná-lo pois sinto-me como se estivesse a bater num ceguinho ou a roubar o brinquedo a um bebé. Digo apenas: até provar que as fadas e os unicórnios não existem, eu acredito neles.
O programa foi seguindo com esta conversa vaga e puritana até que interveio um dos convidados da plateia. Em apenas alguns minutos (os poucos a que teve direito) este individuo debateu mais que o artista ateu no programa inteiro. Levou todos os representantes religiosos a unirem-se contra ele e a atacar o seu conhecimento e sinceridade em vez de responderem directamente às suas questões. Quem era este individuo? Carlos Esperança, presidente da direcção da Associação Ateísta Portuguesa (AAP).
Portanto, vamos ver se eu entendi bem. Temos em Portugal uma associação de ateus cuja função de existência é debater estas questões e o seu presidente está disposto a vir falar ao programa, mas em vez de lhe dar um lugar à mesa para que possa verdadeiramente expor a posição ateia, dão-lhe apenas cinco minutos para falar e no seu lugar convidam um artista plástico que por acaso é ateu?! Eu não tenha nada contra o senhor Pedro Cabrita Reis que me pareceu um grande intelectual bem intencionado, mas esta situação seria semelhante a em vez de dar lugar à mesa ao Padre, dá-lo a um individuo que por acaso ao domingo vai à missa. É de uma incoerência que classificaria de amador se não desconfiasse dos motivos por que ocorreu.
O senhor Carlos Esperança colocou em cima da mesa aquilo que realmente se devia estar a debater. O público não está interessado em filosofias sobre a natureza do transcendeste humano nem precisa que lhes ensinem a ter fé, isso é com cada um. O que motivou este debate para começar foi o momento conturbado que vivemos com ameaças de grupos religiosos extremistas como o ISIS e debates inter-religiosos como o que ocorreu recentemente na Turquia. Teria sido muito mais útil discutir a real utilidade da religião, ou do conceito de Deus, no mundo actual e como combater os grupos que fazem uma interpretação perigosa dos livros sagrados. Como Esperança apontou, a religião não devia ter esta presunção altiva de superioridade e de que é apenas a busca pelo divino e pelo transcendente quando é responsável por muitas das guerras que se travaram e continuam a travar nos dias de hoje.
Mas quando ele disse ao senhor Sheikh que negar a ligação do Estado Islâmico ao islamismo é como negar a ligação do catolicismo à inquisição, ficou "o caldo entornado". A partir daí os representantes deixaram de querer saber o que ele tinha a dizer e preocuparam-se em mandá-lo ler os livros sagrados que, apesar de ele ter afirmado repetidamente que tinha lido, o preferiram considerar dogmático ou defender a religião da "contra religião".
Basicamente o que eles quiseram dizer é isto: "Se o senhor leu os livros e ficou com uma opinião desfavorável da minha religião, vá lê-los outra vez até ter uma opinião favorável, depois falamos."
É natural que os senhores que ali foram representar a suas religiões só concordaram em fazê-lo se o seu "adversário" fosse uma versão "soft" de ateu. Daqueles que tem medo de dizer algo que possa ser considerado ofensivo e que gosta de se perder em debates filosóficos em vez de tratar o que é factual: a religião é hoje um problema e não uma solução.
Cá em Portugal estão muito mal habituados a ver as suas crenças desafiadas. O que fariam num debate com Richard Dawkins, Daniel Denett ou o falecido Christopher Hitchens?
Olhando, em primeiro lugar, para a escolha do painel, tivemos os três principais monoteísmos representados: o cristianismo através do Padre Anselmo Borges e da Pastora da Igreja Evangélica Presbiteriana Maria Eduarda Titosse, o islamismo através do Sheikh David Munir e o judaísmo através de Joshua Ruah. Tivemos depois um convidado para fazer o papel de autoridade cientifica imparcial, o professor de física Carlos Fiolhais. E por fim, não poderia faltar num debate sobre Deus, um ateu: o artista plástico e pintor Pedro Cabrita Reis. A juntar a estes, e como sempre acontece, houve uns quantos convidados na plateia que tiveram direito a alguns minutos de antena. Na minha opinião acho que teria sido interessante se tivessem convidado um budista e um politeísta (por exemplo hindu) para dar uma perspectiva diferente daquela a que estamos habituados com as religiões abraâmicas.
Perante este cenário, e tendo em conta que a questão do programa era se "Deus (em abstracto) tem futuro?" e não propriamente as divisões e interpretações entre as várias religiões, era óbvio que o debate se iria polarizar em duas correntes: os religiosos a acharem que sim (nem poderia ser de outra forma) e os ateus a acharem que não.
E de facto foi isso que aconteceu. Quando a conversa não era apenas declarações politicamente correctas mas um "debate" com argumentos (embora diga-se que nesse departamento foram todos bastante fracos, o Matt Dillahunty não teria dificuldade em levar os intervenientes ao desespero) era quase sempre invariavelmente entre o padre e o ateu. O Padre Anselmo Borges chegou até a utilizar o mais básico e patético argumento para Deus: "Não consegue provar que ele não existe." Eu nem queria aqui mencioná-lo pois sinto-me como se estivesse a bater num ceguinho ou a roubar o brinquedo a um bebé. Digo apenas: até provar que as fadas e os unicórnios não existem, eu acredito neles.
O programa foi seguindo com esta conversa vaga e puritana até que interveio um dos convidados da plateia. Em apenas alguns minutos (os poucos a que teve direito) este individuo debateu mais que o artista ateu no programa inteiro. Levou todos os representantes religiosos a unirem-se contra ele e a atacar o seu conhecimento e sinceridade em vez de responderem directamente às suas questões. Quem era este individuo? Carlos Esperança, presidente da direcção da Associação Ateísta Portuguesa (AAP).
Portanto, vamos ver se eu entendi bem. Temos em Portugal uma associação de ateus cuja função de existência é debater estas questões e o seu presidente está disposto a vir falar ao programa, mas em vez de lhe dar um lugar à mesa para que possa verdadeiramente expor a posição ateia, dão-lhe apenas cinco minutos para falar e no seu lugar convidam um artista plástico que por acaso é ateu?! Eu não tenha nada contra o senhor Pedro Cabrita Reis que me pareceu um grande intelectual bem intencionado, mas esta situação seria semelhante a em vez de dar lugar à mesa ao Padre, dá-lo a um individuo que por acaso ao domingo vai à missa. É de uma incoerência que classificaria de amador se não desconfiasse dos motivos por que ocorreu.
O senhor Carlos Esperança colocou em cima da mesa aquilo que realmente se devia estar a debater. O público não está interessado em filosofias sobre a natureza do transcendeste humano nem precisa que lhes ensinem a ter fé, isso é com cada um. O que motivou este debate para começar foi o momento conturbado que vivemos com ameaças de grupos religiosos extremistas como o ISIS e debates inter-religiosos como o que ocorreu recentemente na Turquia. Teria sido muito mais útil discutir a real utilidade da religião, ou do conceito de Deus, no mundo actual e como combater os grupos que fazem uma interpretação perigosa dos livros sagrados. Como Esperança apontou, a religião não devia ter esta presunção altiva de superioridade e de que é apenas a busca pelo divino e pelo transcendente quando é responsável por muitas das guerras que se travaram e continuam a travar nos dias de hoje.
Mas quando ele disse ao senhor Sheikh que negar a ligação do Estado Islâmico ao islamismo é como negar a ligação do catolicismo à inquisição, ficou "o caldo entornado". A partir daí os representantes deixaram de querer saber o que ele tinha a dizer e preocuparam-se em mandá-lo ler os livros sagrados que, apesar de ele ter afirmado repetidamente que tinha lido, o preferiram considerar dogmático ou defender a religião da "contra religião".
Basicamente o que eles quiseram dizer é isto: "Se o senhor leu os livros e ficou com uma opinião desfavorável da minha religião, vá lê-los outra vez até ter uma opinião favorável, depois falamos."
É natural que os senhores que ali foram representar a suas religiões só concordaram em fazê-lo se o seu "adversário" fosse uma versão "soft" de ateu. Daqueles que tem medo de dizer algo que possa ser considerado ofensivo e que gosta de se perder em debates filosóficos em vez de tratar o que é factual: a religião é hoje um problema e não uma solução.
Cá em Portugal estão muito mal habituados a ver as suas crenças desafiadas. O que fariam num debate com Richard Dawkins, Daniel Denett ou o falecido Christopher Hitchens?
domingo, 16 de novembro de 2014
Os Versículos Satânicos
No final das últimas férias de Verão, em Agosto, decidi ler um livro que estava desde 1989 perdido numa estante cá de casa: "Os Versículos Satânicos" de Salman Rushdie (1988). Como muita gente, já tinha ouvido falar do autor e da polémica que esta obra tinha gerado, mas não fazia ideia do que tratava a história ali contada.
Pois bem, não vou aqui revelar o enredo pois os "spoilers" são desagradáveis, principalmente quando se trata de uma história tão interessante e imprevisível. Vou cingir-me à minha opinião da obra e à polémica que dela resultou, até porque tem a haver com religião, um tema comum aqui no meu blogue.
Em primeiro lugar digo que a obra não é de leitura fácil ou, pelo menos, exige uma boa atenção do leitor, não é algo que possamos ler na diagonal enquanto vamos ouvindo a televisão. Mas a história é interessante e tem um estilo pouco comum que Rushdie aperfeiçoou: o realismo mágico.
Apesar de todos os tumultos que causou, e apesar de ser um facto que a religião está bem presente na obra, a verdade é que para quem interpreta a narrativa, a religião tem um papel secundário.
O que Rushdie quis fazer foi explorar as frustrações dos imigrantes e as falhas da integração multi-cultural. Claramente, o autor quis mostrar como a imigração aumenta a consciência de que as percepções da realidade são relativas e frágeis, assim como a natureza da fé religiosa e como é influenciada pela política. O autor parece ter assumido que comunidades e culturas diferentes partilham uma base comum de moralidade onde um diálogo e um entendimento podem ter lugar. Talvez tenha sido por isso que subestimou a natureza implacável e hostil que a obra provocaria no mundo islâmico. O que até é irónico já que um dos temas do livro é o perigo dos sistemas de crenças absolutistas.
Não sendo eu muçulmano, de nada serve dizer que não encontrei nada particularmente ofensivo na obra. É verdade que parte da obra foca a vida de Maomé o que só por si já é extremamente ofensivo para o Islão. Para mim e para o comum dos ocidentais, é difícil (para não dizer quase impossível) imaginar algo que um escritor pudesse escrever que me levasse a querer genuinamente vê-lo morto. Nada me poderia ofender a esse ponto. O nosso Nobel, Saramago, no seu livro "Caim", chega a chamar "filho da p..." a Deus mas ninguém se sentiu particularmente agastado com isso. Quem não gosta, pode limitar-se a mal-dizer o autor e a desencorajar as suas obras aos outros, mas num país com liberdade de expressão, fica-se por aí.
Mas no caso de Rushdie, atingiu-se um dos maiores marcos de intolerância que se possa imaginar no final do século XX.
Na altura, o aiatola Khomeini lançou uma fatwa a Rushdie. O que isto quer dizer é simples: ordenava todos os muçulmanos a matarem Rushdie, ou se não o conseguissem, pelo menos denunciar a sua localização para que outros o fizessem. E relembro que este não era um muçulmano extremista qualquer, era o aiatola, o líder religioso máximo da altura, uma espécie de papa do Islão. E não só ordenou a morte como proibiu a leitura do livro, ou seja, as pessoas nem tinham permissão de conferir se era realmente ofensivo, tinham apenas de ter fé cega na palavra do seu líder e matar em seu nome.
Senhoras e senhores, é este o nível que a intolerância religiosa pode atingir no mundo actual: um líder religioso, ouvido por milhões de pessoas, ordena por sua deliberação pessoal a morte de um individuo estrangeiro por escrever ficção. Dificilmente consigo imaginar um cenário tão chocante, opressivo e deprimente. É uma distopia ao nível das criadas por Orwell ou Kafka.
Todos temos ideia das leis absolutistas horríveis que existem no mundo islâmico, mas o extraordinário aqui foi que a sentença não ocorreu lá num tribunal religioso na Arábia Saudita. Foi aqui ao lado, em Inglaterra! Ou seja não há sitio nenhum onde nos podemos esconder. Podemos viver num país livre mas se escrevermos algo que ofenda alguém poderoso do outro lado do mundo, podemos ser condenados à morte. E apesar de Rushdie ter sobrevivido a vários atentados, que dizer das inúmeras outras vítimas?
O tradutor japonês da obra foi brutalmente apunhalado até à morte, o tradutor italiano ferido gravemente, o editor norueguês três vezes baleado (sobreviveu depois de ter estado em coma) e o tradutor turco foi o alvo principal de um atentado que resultou no "massacre de Sivas" onde morreram 35 pessoas. Todos estes indivíduos podiam desprezar a obra e o seu autor, mas por terem feito o seu trabalho que consequentemente os ligou à obra, foram assassinados...
O Islão e a liberdade de expressão são incompatíveis. Mas não se pense que o cristianismo está a salvo de criticas! É verdade que já não temos inquisição, mas quando ocorreu todo este episódio de Rushdie o papa da altura, João Paulo II, apressou-se a lamentar não os actos atrozes perpetrados por estes extremistas selvagens mas o facto de Rushdie ter escrito um livro ofensivo.
A liberdade de expressão dita que qualquer pessoa pode escrever sobre o assunto que quiser, e é certo que todos têm o direito de se sentir ofendidos e responder inclusive em tribunal se assim o entenderem. Mas não podemos aceitar que alguém esteja tão ofendido que justifique matar pessoas que nem sequer estão directamente relacionadas com quem nos ofendeu. Aí a sociedade deve intervir, pois senão estaremos reduzidos novamente às leis da selva.
Salman Rushdie levará esta sentença para o túmulo já que após a morte de Khomeini, a fatwa não pode ser revogada. Esta obra recebeu o prémio Whitbread em 1988 e nesse mesmo ano foi finalista do Booker Prize. Entretanto Rushdie recebeu o título de Sir da realeza britânica e é um dos maiores nomes da literatura contemporânea.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
O Novo Acordo Ortográfico
Hoje decidi fazer uma pausa nas minhas incursões pela bíblia para falar de um tema que diria polémico, embora a maioria das pessoas (pelos menos que eu conheço) estejam do mesmo lado da barricada: o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.
Apesar de só em anos recentes (~5) termos começado a ouvir falar deste acordo, a verdade é que ele foi estabelecido em 1990 entre Portugal, Brasil e restantes países lusófonos. Entrou oficialmente em vigor em Maio de 2009, começou a ser adoptado pelo sistema de ensino no ano lectivo 2011/12 e nos organismos oficiais a partir de 1 de Janeiro de 2012. No entanto, até 2015, decorre um período de transição durante o qual se pode ainda utilizar a grafia antiga (basicamente a que resultou da reforma de 1945).
Muitos podem não saber, mas a língua portuguesa e a sua ortografia, sofreu inúmeras reformas ao longo da história.
Durante a idade média, predominou, em Portugal, a ortografia de base fonética, ainda que o mesmo som fosse frequentemente representado de formas diferentes.
A partir do século XVI, registou-se uma clara, embora lenta e confusa, evolução no sentido da construção etimológica das palavras.
Apesar destas alterações, até ao fim do século XIX, como afirma Edite Estrela, "vivia-se numa espécie de Babel ortográfica, onde todos os critérios eram consentidos: sónicos, etimológicos e estéticos. (...) Camões e Castilho adoptaram a escrita fonética. Herculano preferiu a etimológica. (...) Camilo, por exemplo, tanto fazia escrever "sear" como "cear" e Eça raramente acertava com o lugar do h em "rhetórica"."
Logo a seguir à implantação da república, a 1 de Setembro de 1911, é aprovada uma ortografia simplificada da língua portuguesa, que aboliu muitas das duplas consoantes e voltou a privilegiar a pronúncia em prejuízo da etimologia, tal como acontecera ao longo da idade média. No entanto o Brasil, que não fora consultado, não adere à reforma de 1911, ficando os dois países com ortografias diferentes.
Isto levanta alguns problemas no que toca às convenções internacionais. Um dos argumentos de quem é contra o acordo, diz que é um enfraquecimento da língua de Portugal frente ao Brasil. Vale a pena a notar alguns factos a ter em conta:
- os portugueses são cerca de 3,8% dos falantes do português, e os brasileiros 74%.
- São modificadas 1,6% das palavras do português europeu e 0,5% das palavras do português do Brasil.
- De 110 mil palavras estudadas, 575 admitem dupla grafia no português europeu.
Isto são tudo factos, mas passemos aos argumentos propriamente ditos, apresentados pelos defensores e críticos deste acordo.
Argumentos dos defensores:
- As diferenças entre o português de Portugal e Brasil são reduzidas, pelo que não se compreendia a existência de duas formas oficiais de grafia a uma língua comum.
- A dupla grafia tem impedido a internacionalização do português, dificultando o seu uso nas universidades estrangeiras e organismos internacionais em que Portugal e Brasil têm assento.
- Deixará de haver necessidade de duplos textos em documentos oficiais e torna-se possível a adopção pela ONU do português como língua de trabalho.
- Todos os países lusófonos poderão utilizar os mesmos livros e outros materiais nas acções educativas e de formação profissional.
- Dada a simplificação da ortografia, determinada pelo acordo, será mais fácil o ensino.
- A afirmação de que à unificação da escrita se opõem as diferenças vocabulares e de pronuncia entre Portugal e Brasil não faz sentido, porque escrever do mesmo modo não significa falar do mesmo modo.
Argumentos dos críticos:
- É impossível unificar uma língua com base num critério fonético, porque os falantes pronunciarão sempre as palavras de formas diferentes.
- O reconhecimento oficial de grafias duplas e múltiplas contraria o próprio conceito de ortografia.
- Não se seguiu um critério uniforme - privilegiou-se a pronúncia mas não se aboliu o h inicial em vocábulos como homem, humanidade e húmido, por razões alegadamente etimológicas.
- São enormes os custos de substituição de dicionários, gramáticas e livros escolares e literários tornados obsoletos pelo acordo.
- A adopção do acordo visa facilitar a penetração das editoras brasileiras nos países africanos de língua oficial portuguesa.
- Trata-se, diz Vasco Graça Moura, de um diktat neocolonial, em que o mais forte (o Brasil) impõe a sua vontade ao mais fraco (Portugal).
- O acordo conduzirá, a prazo, ao "abrasileiramento" da escrita da vertente portuguesa da língua.
Isto são os argumentos, pelos menos aqueles de que eu tomei conhecimento. Dito isto a minha posição é a seguinte:
Sendo verdade que os defensores apresentam alguns argumentos de peso e muito válidos como o facto do acordo permitir uma maior internacionalização e uso em documentos oficiais, outros dos argumentos parecem-me não se justificar, como é o caso de facilitar o ensino. Na minha opinião isso não poderia nunca ser usado como desculpa para se mudar uma língua. Eu também posso achar que o finlandês é difícil de aprender, mas nunca se mudaria a língua para facilitar a sua aprendizagem.
Por outro lado, alguns dos argumentos dos críticos, como os custos de se mudar os livros e o "abrasileiramento" da língua também não me convencem. Se a nossa língua tivesse problemas, incoerências e inconsistências que fosse necessário corrigir, acho que devíamos avançar para essa correcção mesmo que isso representasse um grande investimento. Quanto à recusa de abrasileiramento, não considero esse ultra-patriotismo relevante, quando uma coisa está mal, corrige-se, independentemente de ficar mais parecido com a nossa versão original ou do país vizinho.
O que me convence e me leva a posicionar-me do lado dos críticos do acordo, é algo que eu valorizo imenso: a consistência de um critério uniforme.
Se o acordo ditasse que iríamos avançar definitivamente para um critério fonético de grafia até podia concordar. Mas este acordo admite duplas grafias, e palavras como as exemplificadas homem, humanidade, húmido mantiveram o h por motivos etimológicos. Esta falta de uniformidade incomoda-me. Se dizemos que vamos adoptar um acordo de base fonética, não podemos depois usar a etimologia como desculpa para manter certas letras em algumas palavras. Eu pessoalmente até prefiro uma escrita de base etimológica, parece-me mais consistente, estética e lógica apesar de poder ser mais difícil de ensinar. Mas estaria disposto a aceitar uma escrita fonética se fosse tudo de facto fonético, não é isso que se verifica.
Portanto, aí está, não concordo com o acordo ortográfico. Não por motivos nacionalistas ou económicos ou históricos, mas pela falta de critério.
Apesar de só em anos recentes (~5) termos começado a ouvir falar deste acordo, a verdade é que ele foi estabelecido em 1990 entre Portugal, Brasil e restantes países lusófonos. Entrou oficialmente em vigor em Maio de 2009, começou a ser adoptado pelo sistema de ensino no ano lectivo 2011/12 e nos organismos oficiais a partir de 1 de Janeiro de 2012. No entanto, até 2015, decorre um período de transição durante o qual se pode ainda utilizar a grafia antiga (basicamente a que resultou da reforma de 1945).
Muitos podem não saber, mas a língua portuguesa e a sua ortografia, sofreu inúmeras reformas ao longo da história.
Durante a idade média, predominou, em Portugal, a ortografia de base fonética, ainda que o mesmo som fosse frequentemente representado de formas diferentes.
A partir do século XVI, registou-se uma clara, embora lenta e confusa, evolução no sentido da construção etimológica das palavras.
Apesar destas alterações, até ao fim do século XIX, como afirma Edite Estrela, "vivia-se numa espécie de Babel ortográfica, onde todos os critérios eram consentidos: sónicos, etimológicos e estéticos. (...) Camões e Castilho adoptaram a escrita fonética. Herculano preferiu a etimológica. (...) Camilo, por exemplo, tanto fazia escrever "sear" como "cear" e Eça raramente acertava com o lugar do h em "rhetórica"."
Logo a seguir à implantação da república, a 1 de Setembro de 1911, é aprovada uma ortografia simplificada da língua portuguesa, que aboliu muitas das duplas consoantes e voltou a privilegiar a pronúncia em prejuízo da etimologia, tal como acontecera ao longo da idade média. No entanto o Brasil, que não fora consultado, não adere à reforma de 1911, ficando os dois países com ortografias diferentes.
Isto levanta alguns problemas no que toca às convenções internacionais. Um dos argumentos de quem é contra o acordo, diz que é um enfraquecimento da língua de Portugal frente ao Brasil. Vale a pena a notar alguns factos a ter em conta:
- os portugueses são cerca de 3,8% dos falantes do português, e os brasileiros 74%.
- São modificadas 1,6% das palavras do português europeu e 0,5% das palavras do português do Brasil.
- De 110 mil palavras estudadas, 575 admitem dupla grafia no português europeu.
Isto são tudo factos, mas passemos aos argumentos propriamente ditos, apresentados pelos defensores e críticos deste acordo.
Argumentos dos defensores:
- As diferenças entre o português de Portugal e Brasil são reduzidas, pelo que não se compreendia a existência de duas formas oficiais de grafia a uma língua comum.
- A dupla grafia tem impedido a internacionalização do português, dificultando o seu uso nas universidades estrangeiras e organismos internacionais em que Portugal e Brasil têm assento.
- Deixará de haver necessidade de duplos textos em documentos oficiais e torna-se possível a adopção pela ONU do português como língua de trabalho.
- Todos os países lusófonos poderão utilizar os mesmos livros e outros materiais nas acções educativas e de formação profissional.
- Dada a simplificação da ortografia, determinada pelo acordo, será mais fácil o ensino.
- A afirmação de que à unificação da escrita se opõem as diferenças vocabulares e de pronuncia entre Portugal e Brasil não faz sentido, porque escrever do mesmo modo não significa falar do mesmo modo.
Argumentos dos críticos:
- É impossível unificar uma língua com base num critério fonético, porque os falantes pronunciarão sempre as palavras de formas diferentes.
- O reconhecimento oficial de grafias duplas e múltiplas contraria o próprio conceito de ortografia.
- Não se seguiu um critério uniforme - privilegiou-se a pronúncia mas não se aboliu o h inicial em vocábulos como homem, humanidade e húmido, por razões alegadamente etimológicas.
- São enormes os custos de substituição de dicionários, gramáticas e livros escolares e literários tornados obsoletos pelo acordo.
- A adopção do acordo visa facilitar a penetração das editoras brasileiras nos países africanos de língua oficial portuguesa.
- Trata-se, diz Vasco Graça Moura, de um diktat neocolonial, em que o mais forte (o Brasil) impõe a sua vontade ao mais fraco (Portugal).
- O acordo conduzirá, a prazo, ao "abrasileiramento" da escrita da vertente portuguesa da língua.
Isto são os argumentos, pelos menos aqueles de que eu tomei conhecimento. Dito isto a minha posição é a seguinte:
Sendo verdade que os defensores apresentam alguns argumentos de peso e muito válidos como o facto do acordo permitir uma maior internacionalização e uso em documentos oficiais, outros dos argumentos parecem-me não se justificar, como é o caso de facilitar o ensino. Na minha opinião isso não poderia nunca ser usado como desculpa para se mudar uma língua. Eu também posso achar que o finlandês é difícil de aprender, mas nunca se mudaria a língua para facilitar a sua aprendizagem.
Por outro lado, alguns dos argumentos dos críticos, como os custos de se mudar os livros e o "abrasileiramento" da língua também não me convencem. Se a nossa língua tivesse problemas, incoerências e inconsistências que fosse necessário corrigir, acho que devíamos avançar para essa correcção mesmo que isso representasse um grande investimento. Quanto à recusa de abrasileiramento, não considero esse ultra-patriotismo relevante, quando uma coisa está mal, corrige-se, independentemente de ficar mais parecido com a nossa versão original ou do país vizinho.
O que me convence e me leva a posicionar-me do lado dos críticos do acordo, é algo que eu valorizo imenso: a consistência de um critério uniforme.
Se o acordo ditasse que iríamos avançar definitivamente para um critério fonético de grafia até podia concordar. Mas este acordo admite duplas grafias, e palavras como as exemplificadas homem, humanidade, húmido mantiveram o h por motivos etimológicos. Esta falta de uniformidade incomoda-me. Se dizemos que vamos adoptar um acordo de base fonética, não podemos depois usar a etimologia como desculpa para manter certas letras em algumas palavras. Eu pessoalmente até prefiro uma escrita de base etimológica, parece-me mais consistente, estética e lógica apesar de poder ser mais difícil de ensinar. Mas estaria disposto a aceitar uma escrita fonética se fosse tudo de facto fonético, não é isso que se verifica.
Portanto, aí está, não concordo com o acordo ortográfico. Não por motivos nacionalistas ou económicos ou históricos, mas pela falta de critério.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Analisando a Bíblia: Génesis 10 e 11
O décimo capítulo do Génesis é apenas a linha de descendentes de Noé, nada de muito interessante, mas supostamente são destas linhagens que surgem todos os povos do mundo após o dilúvio. Analisar os nomes todos é um tédio, por isso vamos avançar para o capítulo 11, muito mais interessante.
Génesis 11:1 a 11:4 - Nesta altura da história os seres humanos falavam todos a mesma língua e fixaram-se na Mesopotâmia. Decidiram então construir uma cidade com uma torre tão alta que chegasse ao céu pois queriam ficar famosos antes de se dispersarem pelo mundo.
Como é óbvio não houve um dado momento em que os seres humanos falavam todos a mesma língua já que esta foi evoluindo à medida que os povos se iam espalhando pelo mundo. Estima-se por exemplo que o ser humano chegou ao Japão à aproximadamente 50 000 anos, e na mesma altura chegava à Papua Nova Guiné. Obviamente estes homens contemporâneos ou povos não falavam a mesma língua já que a última vez que tinham estado juntos foi numa altura em que o ser humano e a sua capacidade de fala ainda não estava totalmente desenvolvida. Mas também, para os criacionistas o mundo tem apenas cerca de 6000 anos portanto isto não lhes deve interessar muito. Vamos voltar ao contexto da narrativa.
Queriam ficar famosos? A maneira como está escrito é um bocado engraçado, mas pronto tudo bem, é um facto que o homem sempre teve a necessidade de deixar marcas que o fizessem ser recordado e ir-se "da lei da morte libertando" como diria Camões.
Génesis 11:5 a 11:9 - Deus viu a torre que se estava a construir e pensou "Eles são um só povo e falam todos a mesma língua. Agora puseram-se a fazer isto e depois ninguém mais os poderá impedir de fazerem aquilo que projectam fazer. Vou lá abaixo confundir as suas línguas, de modo que eles não se entendam uns ao outros." (transcrição integral da bíblia)
Há muito a dizer sobre este pensamento de Deus. Obviamente, esta história foi a explicação que os antigos inventaram para o facto de haver várias línguas no mundo em vez de simplesmente todos falarem igual. Claro que para quem percebe o mínimo de linguística isto não faz qualquer sentido. As línguas evoluíram, um pouco à semelhança dos seres vivos, a partir de línguas mais antigas à medida que as populações se iam isolando e separando umas das outras. Cada grupo dava à língua o seu cunho pessoal até que se tornava uma língua diferente. É por isso que o português, espanhol, francês e italiano derivam todas do latim e são semelhantes entre si, pelo menos quando comparadas com uma língua anglo-saxónica como o alemão por exemplo.
Mas voltando à história, temos um grupo de pessoas que trabalham juntas para atingir um objectivo, e Deus não deixa? Ele impede-as porque senão conseguiriam fazer tudo o que projectassem! E isso é mau porque? Deus não devia querer que a humanidade se unisse e trabalha-se sob uma só voz? Aparentemente não, ele prefere dividi-los e causar diferenças culturais que ao longo da história levarão a guerras e confrontos que poderiam talvez ser evitados se os envolvidos se entendessem. Deus parece que tem medo que eles construam a torre como se isso representasse uma ameaça ao seu poder e autoridade. Não se entende porquê já que ele supostamente é o senhor do universo, qual é o mal de uns humanozitos construírem uma torre? É que na história eles tencionavam fazer a torre chegar ao céu, que é onde se julgava que Deus habitava (ele inclusive diz "vou lá abaixo", o que é estranho vindo de um ser supostamente omnipresente) e ele não deve gostar muito de visitas. Deve ter odiado quando o homem saiu da atmosfera terrestre para ir à lua.
Génesis 11:1 a 11:4 - Nesta altura da história os seres humanos falavam todos a mesma língua e fixaram-se na Mesopotâmia. Decidiram então construir uma cidade com uma torre tão alta que chegasse ao céu pois queriam ficar famosos antes de se dispersarem pelo mundo.
Como é óbvio não houve um dado momento em que os seres humanos falavam todos a mesma língua já que esta foi evoluindo à medida que os povos se iam espalhando pelo mundo. Estima-se por exemplo que o ser humano chegou ao Japão à aproximadamente 50 000 anos, e na mesma altura chegava à Papua Nova Guiné. Obviamente estes homens contemporâneos ou povos não falavam a mesma língua já que a última vez que tinham estado juntos foi numa altura em que o ser humano e a sua capacidade de fala ainda não estava totalmente desenvolvida. Mas também, para os criacionistas o mundo tem apenas cerca de 6000 anos portanto isto não lhes deve interessar muito. Vamos voltar ao contexto da narrativa.
Queriam ficar famosos? A maneira como está escrito é um bocado engraçado, mas pronto tudo bem, é um facto que o homem sempre teve a necessidade de deixar marcas que o fizessem ser recordado e ir-se "da lei da morte libertando" como diria Camões.
Génesis 11:5 a 11:9 - Deus viu a torre que se estava a construir e pensou "Eles são um só povo e falam todos a mesma língua. Agora puseram-se a fazer isto e depois ninguém mais os poderá impedir de fazerem aquilo que projectam fazer. Vou lá abaixo confundir as suas línguas, de modo que eles não se entendam uns ao outros." (transcrição integral da bíblia)
Há muito a dizer sobre este pensamento de Deus. Obviamente, esta história foi a explicação que os antigos inventaram para o facto de haver várias línguas no mundo em vez de simplesmente todos falarem igual. Claro que para quem percebe o mínimo de linguística isto não faz qualquer sentido. As línguas evoluíram, um pouco à semelhança dos seres vivos, a partir de línguas mais antigas à medida que as populações se iam isolando e separando umas das outras. Cada grupo dava à língua o seu cunho pessoal até que se tornava uma língua diferente. É por isso que o português, espanhol, francês e italiano derivam todas do latim e são semelhantes entre si, pelo menos quando comparadas com uma língua anglo-saxónica como o alemão por exemplo.
Mas voltando à história, temos um grupo de pessoas que trabalham juntas para atingir um objectivo, e Deus não deixa? Ele impede-as porque senão conseguiriam fazer tudo o que projectassem! E isso é mau porque? Deus não devia querer que a humanidade se unisse e trabalha-se sob uma só voz? Aparentemente não, ele prefere dividi-los e causar diferenças culturais que ao longo da história levarão a guerras e confrontos que poderiam talvez ser evitados se os envolvidos se entendessem. Deus parece que tem medo que eles construam a torre como se isso representasse uma ameaça ao seu poder e autoridade. Não se entende porquê já que ele supostamente é o senhor do universo, qual é o mal de uns humanozitos construírem uma torre? É que na história eles tencionavam fazer a torre chegar ao céu, que é onde se julgava que Deus habitava (ele inclusive diz "vou lá abaixo", o que é estranho vindo de um ser supostamente omnipresente) e ele não deve gostar muito de visitas. Deve ter odiado quando o homem saiu da atmosfera terrestre para ir à lua.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Analisando a Bíblia: Génesis 8 e 9
Génesis 8:21/22 - Deus promete nunca mais voltar a amaldiçoar a Terra por causa do seres humanos "ainda que têm más inclinações desde a infância". Diz também que nunca faltará sementeira e colheita.
Novamente, se os humanos têm más inclinações desde a infância, foi porque Deus os criou assim, ou, como já disse antes, como foram feitos à imagem de Deus, talvez tenham saído assim porque Deus também tem más inclinações.
Ele diz que nunca faltará colheita? Pois então Deus é mentiroso pois como veremos quando chegarmos ao Êxodo, vai haver muita falta de colheitas e sementeira.
Génesis 9:1 - Deus diz a Noé e a seus filhos para serem férteis e povoarem a Terra.
Portanto, somos todos descendentes de Noé. Isto levanta alguns problemas de ordem genética semelhantes aos que falei aquando da "primeira tentativa frustrada" de Deus com Adão e Eva, mas pelo menos agora estão presentes as noras de Adão que presumivelmente não são consanguíneas o que sempre dá alguma variedade. Contudo uma família de 6 ou 7 elementos, não é suficiente para originar uma população de pelo menos centenas de milhares de pessoas em tão poucos anos como fica explícito na Bíblia. Lembrem-se que toda a gente morreu na inundação menos esta família portanto daqui vão ter de sair todas as raças, tribos, todo o Egipto e por aí fora.
Génesis 9:11 a 9:15 - Deus faz um pacto com a humanidade de nunca mais inundar a Terra e para se lembrar desse pacto faz com que sempre que ele lança nuvens para fazer chover aparece um arco-íris para o relembrar.
Obviamente isto é uma tentativa dos antigos para explicar porque existe o arco-íris, mas que espécie de Deus, supostamente omnipotente e omnisciente, é que precisa de um lembrete para não matar toda a gente? Deus tem problemas de memória? Tudo bem que a ideia nem é má, mas dá uma imagem um pouco tosca de Deus.
Génesis 9:18 a 9:27 - Os filhos de Noé eram Sem, Cam e Jafet. Cam teve um filho chamado Canaã. Noé tornou-se o primeiro cultivador de vinha. Um dia embebedou-se com o seu vinho e despiu-se completamente na sua tenda. Cam viu-o e foi contar aos seus dois irmãos e estes entraram na tenda com uma peça de roupa e taparam o pai. Quando Noé recuperou da sua embriaguez, amaldiçoou o seu neto Canaã para que fosse para sempre escravo dos outros.
Por tanto nós descendemos todos de um bêbado? Mas pronto, como ele foi o primeiro vinicultor vou dar-lhe de barato que talvez ele não conhecesse os efeitos do álcool. Mas quando ele acorda em vez de se desculpar do comportamento que tinha tido e agradecer aos seus filhos prefere amaldiçoar o seu neto que não teve nada a haver com a história! Isto parece tão aleatório que nem sem como interpretar. Ele não deve ter ficado a bater bem depois da bebedeira.
Génesis 9:29 - Noé morre com 950 anos.
Noé tinha 600 anos quando terminou de construir a arca e acaba por morrer quase com um milénio de vida. É bom não esquecer que em Génesis 6:3 Deus tinha dito que as pessoas não viveriam mais que 120 anos, mas pronto, como Noé já era vivo quando Deus inventou essa regra, talvez não se aplique a ele. Mas seguramente com este novo começo para a civilização depois da cheia, isto vai entrar em vigor (spoiler: não vai não)
Novamente, se os humanos têm más inclinações desde a infância, foi porque Deus os criou assim, ou, como já disse antes, como foram feitos à imagem de Deus, talvez tenham saído assim porque Deus também tem más inclinações.
Ele diz que nunca faltará colheita? Pois então Deus é mentiroso pois como veremos quando chegarmos ao Êxodo, vai haver muita falta de colheitas e sementeira.
Génesis 9:1 - Deus diz a Noé e a seus filhos para serem férteis e povoarem a Terra.
Portanto, somos todos descendentes de Noé. Isto levanta alguns problemas de ordem genética semelhantes aos que falei aquando da "primeira tentativa frustrada" de Deus com Adão e Eva, mas pelo menos agora estão presentes as noras de Adão que presumivelmente não são consanguíneas o que sempre dá alguma variedade. Contudo uma família de 6 ou 7 elementos, não é suficiente para originar uma população de pelo menos centenas de milhares de pessoas em tão poucos anos como fica explícito na Bíblia. Lembrem-se que toda a gente morreu na inundação menos esta família portanto daqui vão ter de sair todas as raças, tribos, todo o Egipto e por aí fora.
Génesis 9:11 a 9:15 - Deus faz um pacto com a humanidade de nunca mais inundar a Terra e para se lembrar desse pacto faz com que sempre que ele lança nuvens para fazer chover aparece um arco-íris para o relembrar.
Obviamente isto é uma tentativa dos antigos para explicar porque existe o arco-íris, mas que espécie de Deus, supostamente omnipotente e omnisciente, é que precisa de um lembrete para não matar toda a gente? Deus tem problemas de memória? Tudo bem que a ideia nem é má, mas dá uma imagem um pouco tosca de Deus.
Génesis 9:18 a 9:27 - Os filhos de Noé eram Sem, Cam e Jafet. Cam teve um filho chamado Canaã. Noé tornou-se o primeiro cultivador de vinha. Um dia embebedou-se com o seu vinho e despiu-se completamente na sua tenda. Cam viu-o e foi contar aos seus dois irmãos e estes entraram na tenda com uma peça de roupa e taparam o pai. Quando Noé recuperou da sua embriaguez, amaldiçoou o seu neto Canaã para que fosse para sempre escravo dos outros.
Por tanto nós descendemos todos de um bêbado? Mas pronto, como ele foi o primeiro vinicultor vou dar-lhe de barato que talvez ele não conhecesse os efeitos do álcool. Mas quando ele acorda em vez de se desculpar do comportamento que tinha tido e agradecer aos seus filhos prefere amaldiçoar o seu neto que não teve nada a haver com a história! Isto parece tão aleatório que nem sem como interpretar. Ele não deve ter ficado a bater bem depois da bebedeira.
Génesis 9:29 - Noé morre com 950 anos.
Noé tinha 600 anos quando terminou de construir a arca e acaba por morrer quase com um milénio de vida. É bom não esquecer que em Génesis 6:3 Deus tinha dito que as pessoas não viveriam mais que 120 anos, mas pronto, como Noé já era vivo quando Deus inventou essa regra, talvez não se aplique a ele. Mas seguramente com este novo começo para a civilização depois da cheia, isto vai entrar em vigor (spoiler: não vai não)
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Analisando a Bíblia: Génesis 7
Génesis 7:2 - Deus diz a Noé para levar na arca sete pares, macho e fêmea, de todos os animais puros e um só par de animais não puros.
E voltamos às contradições... No último capítulo Deus tinha dito a Noé um par de cada espécie mas agora decide que são sete pares de animais puros mas os impuros continua a ser só um par. Os animais impuros eram os que estavam associados a doenças e que não podiam ser comidos (ratos, coelhos, porcos, etc.). O que advém daqui é que há ainda menos espaço na já impossivelmente apertada arca para colocar todos os animais.
Génesis 7:19 - Com a inundação as águas subiram até cobrirem as montanhas mais altas.
Até cobrirem as montanhas mais altas? Ora bem, como se sabe, o monte Evereste é a montanha mais elevada da Terra com 8850 metros acima do nível do mar. A quantidade de água necessária para que o Evereste ficasse completamente submerso seria de aproximadamente 4,5 mil milhões de km cúbicos (sim, existem estudos feitos sobre isto), mas o volume de água que existe na Terra, sumando todos os oceanos é de apenas 1,3 mil milhões de Km cúbicos. Isto levanta a questão de onde veio toda esta água. Mas pronto, já sabemos que quando estas impossibilidades acontecem, os apologistas dizem simplesmente que Deus pode fazer o que quiser, foi magia.
Mas não deixa de ser curioso que uma cheia que inundou o mundo inteiro e que causou a maior extinção em massa da história da Terra não aparece nos registos estratigráficos e geológicos nem parece ter sido notada pelas civilizações que viviam longe da zona de onde são originários os contos da Bíblia.
A inundação durou 150 dias, depois disso a água desaparece, para onde? Ninguém sabe! Deve ter sido a mesma magia que a fez aparecer.
E voltamos às contradições... No último capítulo Deus tinha dito a Noé um par de cada espécie mas agora decide que são sete pares de animais puros mas os impuros continua a ser só um par. Os animais impuros eram os que estavam associados a doenças e que não podiam ser comidos (ratos, coelhos, porcos, etc.). O que advém daqui é que há ainda menos espaço na já impossivelmente apertada arca para colocar todos os animais.
Génesis 7:19 - Com a inundação as águas subiram até cobrirem as montanhas mais altas.
Até cobrirem as montanhas mais altas? Ora bem, como se sabe, o monte Evereste é a montanha mais elevada da Terra com 8850 metros acima do nível do mar. A quantidade de água necessária para que o Evereste ficasse completamente submerso seria de aproximadamente 4,5 mil milhões de km cúbicos (sim, existem estudos feitos sobre isto), mas o volume de água que existe na Terra, sumando todos os oceanos é de apenas 1,3 mil milhões de Km cúbicos. Isto levanta a questão de onde veio toda esta água. Mas pronto, já sabemos que quando estas impossibilidades acontecem, os apologistas dizem simplesmente que Deus pode fazer o que quiser, foi magia.
Mas não deixa de ser curioso que uma cheia que inundou o mundo inteiro e que causou a maior extinção em massa da história da Terra não aparece nos registos estratigráficos e geológicos nem parece ter sido notada pelas civilizações que viviam longe da zona de onde são originários os contos da Bíblia.
A inundação durou 150 dias, depois disso a água desaparece, para onde? Ninguém sabe! Deve ter sido a mesma magia que a fez aparecer.
Analisando a Bíblia: Génesis 6
Génesis 6:3 - Deus decide que daí em diante os humanos não sobreviverão mais que 120 anos.
Até parece uma decisão sensata, provavelmente motivada pelo facto da população estar a crescer exponencialmente e 120 anos já é uma longa vida. Mas como veremos adiante, é treta pois esta regra parece ser ignorada como uma lei que está no papel mas ninguém cumpre.
Génesis 6:4 - Existiam gigantes na Terra que nasceram da procriação de mulheres com seres celestes (presumivelmente anjos).
Existiam gigantes?! Estamos a falar de gigantes com 2 ou 20 metros de altura? E como é que anjos, que supostamente nem deviam ter sexo, se deixaram seduzir por mulheres normais. Se calhar nem foram seduzidos, são simplesmente depravados sexuais. Seja como for, esta passagem é muito estranha.
Génesis 6:5 a 6:8 - Deus viu que havia muita maldade na Terra por causa dos homens e sentiu pena e arrependimento de ter criado a humanidade. Decide destruir a Terra inteira. Contudo, gosta de Noé.
Há tanta coisa errada nestas passagens que até custa começar! Ora bem, existia muita maldade na Terra e Deus arrependeu-se? Como é que um ser omnisciente que sabe tudo se pode arrepender de uma decisão se já sabe o que vai acontecer!? Ele já devia saber que tudo isto ia acontecer e nesse sentido porque criou o ser humano com esta inclinação para a maldade? Podia ter criado o homem como um ser sempre bondoso, mas não. (Se calhar por ser criado à sua imagem saiu assim, o que demonstraria que Deus era malévolo)
Depois, que tipo de decisão é essa? Como há maldade vou destruir o mundo inteiro incluindo todas as pessoas que não são malvadas, crianças, bebés, todos os animais! Ele é Deus, porque não simplesmente estalar dos dedos e acabar com toda a maldade?
Neste sentido expliquem-me qual a diferença entre Deus e Hitler. Ambos tinham uma visão para o que queriam do mundo, e perante a presença de pessoas que não se coadunavam com essa visão ambos decidiram exterminá-las do mapa, mesmo que muitas fossem inocentes. Só porque neste caso foi Deus, já está moralmente justificado? Se Deus é assim, não percebo porque haveria alguém de querer venerá-lo, só se for por medo!
E por fim, Deus escolhe Noé, que será (juntamente com a sua família) o único sobrevivente. Já tinha-mos visto que Deus gosta de eleger preferidos sem aparente justificação mas querem insinuar que não havia ninguém mais na Terra que não fosse malvada? Isso é ridículo! Mas é o que diz a seguir, Noé era a única pessoa justa (6:9). E não podia ao menos arranjar uma forma de conduzir o extermínio sem vitimar bebés, crianças e os animais? Que culpa têm eles do que quer que seja?
Génesis 6:13 a 6:22 - Deus explica a Noé a sua intenção de inundar o mundo inteiro e mando-o construir uma arca (ou seja um barco) com 150 metros de comprimento por 25 de largura e 15 de altura e lá deverá reunir dois exemplares (um macho e uma fêmea) de cada espécie de animal, além da comida indicada para cada animal.
Confesso que fico impressionado, não por bons motivos, com as pessoas que acreditam que isto aconteceu. Ok, tudo bem que um barco com 150 metros é impressionante, especialmente para a época, mas está longe de ser o maior barco já criado, o Titanic tinha quase o dobro do tamanho. O volume cúbico da arca (baseado nas medidas dadas) seria de 462 686,4 metros cúbicos. Este espaço não seria nem de perto suficiente para colocar os milhares de espécies que existem (e já estou a dizer milhares e não milhões porque excluo tudo o que é animais marinhos e insectos) além de mantimentos para os 11 meses que lá vão estar. E já agora, como é que Noé, que vivia no médio-oriente, foi buscar animais como o pinguim e o urso polar ou um capivara ou qualquer animal da Austrália (cangurus, coalas, etc.) se estes animais eram totalmente desconhecidos naquela zona do mundo? Supostamente a Bíblia trata a história da humanidade e do mundo, mas curiosamente toda a narrativa se passa numa zona muito específica do planeta e com assuntos apenas relevantes para aquela população. Deus estava simplesmente a ignorar os nativos norte-americanos, os asiáticos, os aborígenes australianos, a África subsariana, etc. esses milhões de pessoas nunca são mencionados porquê? É tão óbvio que não passam de histórias que circulavam naquela região na altura.
E já que estamos com a mão na massa, então e os animais extintos? Os dinossauros também foram na arca? Segundo o museu criacionista do Texas, sim! É curioso que na Bíblia inteira nunca é mencionado a existência de dinossauros. (é quase como se quem escreveu não soubesse da sua existência) Seria de pensar que a presença de animais com 10 metros de altura, alguns deles verdadeiras máquinas de matar teria alguma relevância, desde logo nas cadeias alimentares. Como poderia hoje um leão sobreviver se tivesse a concorrência de um T-Rex? Já para não dizer que se os animais extintos estivessem na arca, esqueçam os milhares, estamos mesmo a falar de muitos milhões de espécies, a duplicar por que tinham de ser macho e fêmea. E como conseguiria Noé impedir os predadores de comer os outros animais na arca? Diz que Noé teve que levar comida para todos, talvez tenha levado 3 zebras em vez de duas, para alimentar os leões?
Toda esta história pode ser engraçada como narrativa, mas se tentarmos imaginá-la no mundo real, é ridícula e completamente impossível.
Até parece uma decisão sensata, provavelmente motivada pelo facto da população estar a crescer exponencialmente e 120 anos já é uma longa vida. Mas como veremos adiante, é treta pois esta regra parece ser ignorada como uma lei que está no papel mas ninguém cumpre.
Génesis 6:4 - Existiam gigantes na Terra que nasceram da procriação de mulheres com seres celestes (presumivelmente anjos).
Existiam gigantes?! Estamos a falar de gigantes com 2 ou 20 metros de altura? E como é que anjos, que supostamente nem deviam ter sexo, se deixaram seduzir por mulheres normais. Se calhar nem foram seduzidos, são simplesmente depravados sexuais. Seja como for, esta passagem é muito estranha.
Génesis 6:5 a 6:8 - Deus viu que havia muita maldade na Terra por causa dos homens e sentiu pena e arrependimento de ter criado a humanidade. Decide destruir a Terra inteira. Contudo, gosta de Noé.
Há tanta coisa errada nestas passagens que até custa começar! Ora bem, existia muita maldade na Terra e Deus arrependeu-se? Como é que um ser omnisciente que sabe tudo se pode arrepender de uma decisão se já sabe o que vai acontecer!? Ele já devia saber que tudo isto ia acontecer e nesse sentido porque criou o ser humano com esta inclinação para a maldade? Podia ter criado o homem como um ser sempre bondoso, mas não. (Se calhar por ser criado à sua imagem saiu assim, o que demonstraria que Deus era malévolo)
Depois, que tipo de decisão é essa? Como há maldade vou destruir o mundo inteiro incluindo todas as pessoas que não são malvadas, crianças, bebés, todos os animais! Ele é Deus, porque não simplesmente estalar dos dedos e acabar com toda a maldade?
Neste sentido expliquem-me qual a diferença entre Deus e Hitler. Ambos tinham uma visão para o que queriam do mundo, e perante a presença de pessoas que não se coadunavam com essa visão ambos decidiram exterminá-las do mapa, mesmo que muitas fossem inocentes. Só porque neste caso foi Deus, já está moralmente justificado? Se Deus é assim, não percebo porque haveria alguém de querer venerá-lo, só se for por medo!
E por fim, Deus escolhe Noé, que será (juntamente com a sua família) o único sobrevivente. Já tinha-mos visto que Deus gosta de eleger preferidos sem aparente justificação mas querem insinuar que não havia ninguém mais na Terra que não fosse malvada? Isso é ridículo! Mas é o que diz a seguir, Noé era a única pessoa justa (6:9). E não podia ao menos arranjar uma forma de conduzir o extermínio sem vitimar bebés, crianças e os animais? Que culpa têm eles do que quer que seja?
Génesis 6:13 a 6:22 - Deus explica a Noé a sua intenção de inundar o mundo inteiro e mando-o construir uma arca (ou seja um barco) com 150 metros de comprimento por 25 de largura e 15 de altura e lá deverá reunir dois exemplares (um macho e uma fêmea) de cada espécie de animal, além da comida indicada para cada animal.
Confesso que fico impressionado, não por bons motivos, com as pessoas que acreditam que isto aconteceu. Ok, tudo bem que um barco com 150 metros é impressionante, especialmente para a época, mas está longe de ser o maior barco já criado, o Titanic tinha quase o dobro do tamanho. O volume cúbico da arca (baseado nas medidas dadas) seria de 462 686,4 metros cúbicos. Este espaço não seria nem de perto suficiente para colocar os milhares de espécies que existem (e já estou a dizer milhares e não milhões porque excluo tudo o que é animais marinhos e insectos) além de mantimentos para os 11 meses que lá vão estar. E já agora, como é que Noé, que vivia no médio-oriente, foi buscar animais como o pinguim e o urso polar ou um capivara ou qualquer animal da Austrália (cangurus, coalas, etc.) se estes animais eram totalmente desconhecidos naquela zona do mundo? Supostamente a Bíblia trata a história da humanidade e do mundo, mas curiosamente toda a narrativa se passa numa zona muito específica do planeta e com assuntos apenas relevantes para aquela população. Deus estava simplesmente a ignorar os nativos norte-americanos, os asiáticos, os aborígenes australianos, a África subsariana, etc. esses milhões de pessoas nunca são mencionados porquê? É tão óbvio que não passam de histórias que circulavam naquela região na altura.
E já que estamos com a mão na massa, então e os animais extintos? Os dinossauros também foram na arca? Segundo o museu criacionista do Texas, sim! É curioso que na Bíblia inteira nunca é mencionado a existência de dinossauros. (é quase como se quem escreveu não soubesse da sua existência) Seria de pensar que a presença de animais com 10 metros de altura, alguns deles verdadeiras máquinas de matar teria alguma relevância, desde logo nas cadeias alimentares. Como poderia hoje um leão sobreviver se tivesse a concorrência de um T-Rex? Já para não dizer que se os animais extintos estivessem na arca, esqueçam os milhares, estamos mesmo a falar de muitos milhões de espécies, a duplicar por que tinham de ser macho e fêmea. E como conseguiria Noé impedir os predadores de comer os outros animais na arca? Diz que Noé teve que levar comida para todos, talvez tenha levado 3 zebras em vez de duas, para alimentar os leões?
Toda esta história pode ser engraçada como narrativa, mas se tentarmos imaginá-la no mundo real, é ridícula e completamente impossível.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Analisando a Bíblia: Génesis 5
No 5.º capítulo do livro do Génesis apenas é dada a genealogia de Adão a Noé. Para os antigos as genealogias eram muito importantes uma vez que era a única maneira de garantir as heranças não só da riqueza mas do prestígio da família e do poder, nomeadamente dos réis.
A ordem porque aparece é a seguinte:
Adão e Eva
Set
Enós
Quenan
Malaliel
Jared
Henoc
Matusalém
Lamec
Noé
Sim, de facto é diferente da ordem que aparece no capítulo anterior, há nomes iguais e nomes novos, alguns que parecem ser apenas uma tradução diferente, tal é a parecença na maneira de escrever. Caim e Abel nem sequer são mencionados. A bíblia tem uma grande dificuldade em manter-se consistente duma página para a seguinte.
Outra coisa interessante é a enorme longevidade desta gente! Adão morreu com 930 anos, e nenhum deles viveu menos de 700. Apesar da esperança média de vida ter aumentado brutalmente ao longo do século XX, o ser humano mais velho de que há registo foi uma mulher francesa que morreu em 1997 com 122 anos. Se forem ver fotografias dela, ela parecia de facto ter a idade que tinha, um corpo muito mirrado e fraco mas estes homens da bíblia não só vivem muito tempo como mantêm todas as suas capacidades intactas como o facto de continuarem a ter filhos muito para lá dos 100 anos. Noé por exemplo, tinha já 600 anos quando terminou de construir a sua arca!
A ordem porque aparece é a seguinte:
Adão e Eva
Set
Enós
Quenan
Malaliel
Jared
Henoc
Matusalém
Lamec
Noé
Sim, de facto é diferente da ordem que aparece no capítulo anterior, há nomes iguais e nomes novos, alguns que parecem ser apenas uma tradução diferente, tal é a parecença na maneira de escrever. Caim e Abel nem sequer são mencionados. A bíblia tem uma grande dificuldade em manter-se consistente duma página para a seguinte.
Outra coisa interessante é a enorme longevidade desta gente! Adão morreu com 930 anos, e nenhum deles viveu menos de 700. Apesar da esperança média de vida ter aumentado brutalmente ao longo do século XX, o ser humano mais velho de que há registo foi uma mulher francesa que morreu em 1997 com 122 anos. Se forem ver fotografias dela, ela parecia de facto ter a idade que tinha, um corpo muito mirrado e fraco mas estes homens da bíblia não só vivem muito tempo como mantêm todas as suas capacidades intactas como o facto de continuarem a ter filhos muito para lá dos 100 anos. Noé por exemplo, tinha já 600 anos quando terminou de construir a sua arca!
domingo, 7 de setembro de 2014
Analisando a Bíblia: Génesis 4
Génesis 4:1 a 4:7 - Eva dá à luz Caim (que se tornaria agricultor) e Abel (que se tornaria pastor). Certo dia os dois irmãos estavam a oferecer produtos a Deus: Caim ofereceu produtos da terra e Abel ofereceu crias de gado. Deus gostou da oferta de Abel mas não gostou da oferta de Caim, o que o deixou com raiva do irmão.
Qualquer pessoa vê a questão óbvia nisto: porque é que Deus não gostou da oferta de Caim? Nem sequer dá explicação nenhuma! Ser pastor é uma profissão mais digna que ser agricultor? Não devia Deus gostar igualmente de carne e legumes sendo ambos a sua criação? Quer dizer, parte-se do principio que Deus nem sequer vai comer as ofertas, ele é Deus não precisa de comer, por isso o que interessa deveria ser o acto de devoção e não o que está a ser oferecido. Cada um deles ofereceu o que tinha mas Deus favoreceu um em relação ao outro, como de resto fará por várias vezes ao longo da história: escolher preferidos, apesar de sermos todos filhos dele.
Génesis 4:8 - Caim mata o seu irmão Abel.
Tudo bem, Caim estava cego de raiva pelo irmão, é um facto. Mas temos que ver até que ponto é Caim culpado. Ele foi injustiçado sem justificação, e temos de nos lembrar que até este ponto na história nunca ninguém tinha morrido, Adão e Eva ainda eram vivos e só haviam mais Caim e Abel. Será que ele tinha plena noção que os humanos podiam morrer? É um debate interessante mas continuemos.
Génesis 4:12 a 4:16 - Como castigo por ter morto o seu irmão, Caim é forçado ser um perdido e errante (no fundo passa a ser um nómada) além de nada do que ele plantar lhe dar frutos. Caim diz a Deus que se andar errante pela Terra, qualquer pessoa que o encontre o pode matar. Para prevenir isso Deus faz-lhe uma marca que indica a quem a vir que não o pode matar.
Comparado com o castigo que os seus pais tiveram por comer uma peça de fruta, Caim parece ter apanhado Deus de bom humor! Tem apenas de se tornar errante pela Terra. Mas há uma questão: De quem é que Caim tem medo? Ele diz que pode ser morto por alguém que o encontre mas nesta altura só estão vivos para além dele os seus pais e possivelmente algum irmão ou irmã. Tem medo de ser alvo de represálias dos seus familiares? Deus permitiria isso? Parece que sim pois tanto lhe deu razão que até lhe pôs uma marca, apesar de não ser explicitada como seria essa marca. (talvez uma tatuagem a dizer "DO NOT KILL!")
Génesis 4:17 - Caim tem relações com a sua mulher e esta dá à luz.
Mas de onde é que apareceu esta mulher? Nada é explicado. A única possibilidade é ser uma irmã sua, ou na melhor das hipóteses uma prima. Para que a humanidade se multiplicasse a partir de Eva e Adão teve forçosamente de haver relações incestuosas.
Nas próximas passagens conta-se apenas as árvores genealógicas de Caim e Adão. Não é nada de interessante mas para uma referência futura vamos indicar a ordem:
Adão e Eva
Abel e Caim
Henoc
Irad
Meujael
Metusael
Lamec
Jabal e Jubal
Qualquer pessoa vê a questão óbvia nisto: porque é que Deus não gostou da oferta de Caim? Nem sequer dá explicação nenhuma! Ser pastor é uma profissão mais digna que ser agricultor? Não devia Deus gostar igualmente de carne e legumes sendo ambos a sua criação? Quer dizer, parte-se do principio que Deus nem sequer vai comer as ofertas, ele é Deus não precisa de comer, por isso o que interessa deveria ser o acto de devoção e não o que está a ser oferecido. Cada um deles ofereceu o que tinha mas Deus favoreceu um em relação ao outro, como de resto fará por várias vezes ao longo da história: escolher preferidos, apesar de sermos todos filhos dele.
Génesis 4:8 - Caim mata o seu irmão Abel.
Tudo bem, Caim estava cego de raiva pelo irmão, é um facto. Mas temos que ver até que ponto é Caim culpado. Ele foi injustiçado sem justificação, e temos de nos lembrar que até este ponto na história nunca ninguém tinha morrido, Adão e Eva ainda eram vivos e só haviam mais Caim e Abel. Será que ele tinha plena noção que os humanos podiam morrer? É um debate interessante mas continuemos.
Génesis 4:12 a 4:16 - Como castigo por ter morto o seu irmão, Caim é forçado ser um perdido e errante (no fundo passa a ser um nómada) além de nada do que ele plantar lhe dar frutos. Caim diz a Deus que se andar errante pela Terra, qualquer pessoa que o encontre o pode matar. Para prevenir isso Deus faz-lhe uma marca que indica a quem a vir que não o pode matar.
Comparado com o castigo que os seus pais tiveram por comer uma peça de fruta, Caim parece ter apanhado Deus de bom humor! Tem apenas de se tornar errante pela Terra. Mas há uma questão: De quem é que Caim tem medo? Ele diz que pode ser morto por alguém que o encontre mas nesta altura só estão vivos para além dele os seus pais e possivelmente algum irmão ou irmã. Tem medo de ser alvo de represálias dos seus familiares? Deus permitiria isso? Parece que sim pois tanto lhe deu razão que até lhe pôs uma marca, apesar de não ser explicitada como seria essa marca. (talvez uma tatuagem a dizer "DO NOT KILL!")
Génesis 4:17 - Caim tem relações com a sua mulher e esta dá à luz.
Mas de onde é que apareceu esta mulher? Nada é explicado. A única possibilidade é ser uma irmã sua, ou na melhor das hipóteses uma prima. Para que a humanidade se multiplicasse a partir de Eva e Adão teve forçosamente de haver relações incestuosas.
Nas próximas passagens conta-se apenas as árvores genealógicas de Caim e Adão. Não é nada de interessante mas para uma referência futura vamos indicar a ordem:
Adão e Eva
Abel e Caim
Henoc
Irad
Meujael
Metusael
Lamec
Jabal e Jubal
Analisando a Bíblia: Génesis 3
Génesis 3:1 a 3:6 - Uma cobra, o mais astuto e malvado dos animais, convence Eva a comer da árvore do conhecimento e esta leva Adão a também comer.
Primeiro ponto óbvio: como é que há uma cobra a falar com Eva? Será preciso mais para as pessoas perceberem que isto é uma fábula e não uma história verídica? Depois, porque razão criou Deus a cobra como um animal malvado e astuto? Que bem poderia advir dessa situação? Há apologistas que dizem que a cobra estava possuída pelo Diabo. Desculpem, mas nada disso está escrito no livro, portanto essa teoria é só uma invenção para tentar desculpar o facto de Deus ter criado um animal aparentemente malévolo.
Também me chamou a atenção Eva saber que não se podia comer da árvore do conhecimento apesar deste aviso ter sido feito por Deus a Adão antes de Eva ser criada, mas vou dar de barato que foi Adão que lhe disse mais tarde apesar disso não vir escrito em lado nenhum.
Por fim, supostamente Adão e Eva só ganharam conhecimento do bem e do mal depois de comerem da "árvore do conhecimento do bem e do mal" por isso, como haveriam eles de saber que era errado desobedecer a Deus? (Já para não dizer que Deus obrigatoriamente já devia saber que eles iam desobedecer) E porque não quer Deus que eles adquiram conhecimento do bem e do mal? Quer que eles vivam para sempre na ignorância? Isto é importante pois este primeiro "crime" designado por "Pecado Original" é o que vai amaldiçoar para sempre a humanidade até aos nossos dias.
Génesis 3:7 - Depois de ganhar conhecimento, Adão e Eva apercebem-se que estão nus e sentem vergonha.
Como exactamente é que eles se apercebem que estão nus? Eles são os dois únicos humanos na Terra e os animais não usam roupa por isso eles nunca viram um ser vivo a tapar as suas zonas privadas, nunca viram roupa na vida. E mesmo que soubessem que estavam nus, só poderiam ser vistos por Deus, que os criou e conhece tudo incluindo a anatomia dos humanos ou o seu conjugue com quem vive e cuja única "missão" é procriar a vida inteira. Em qualquer dessas situações, porque haveriam de ter vergonha?
Génesis 3:8 e 3:9 - Deus anda a passear no jardim do Éden e não vendo Adão chama-o e pergunta onde está (eles tinham-se escondido nos arbustos por vergonha de estarem nus).
Tirando a imagem engraçada que é imaginar Deus a passear no jardim (é o único momento na Bíblia em que Deus aparece explicitamente a andar pela Terra), esta passagem dá um pontapé na ideia de Deus ser omnisciente e omnipresente. Se ele sabe tudo deveria saber onde estava Adão e não precisar de lhe perguntar. E se ele fosse omnipresente, teoricamente seria impossível esconder-mo-nos de Deus pois ele estaria lá.
Génesis 3:16 a 3:19 - Como castigo por terem comido da árvore do conhecimento, Deus faz com que daí em diante os homens tenham de produzir com grande esforço o seu alimento e faz com que dar à luz seja muito doloroso para as mulheres além de serem para sempre subservientes aos homens.
Que castigo tão severo por comer uma peça de fruta! Tudo bem que eles possam ser castigados mas porquê castigar os seus descendentes para sempre? Eles não tiveram culpa de nada.
Génesis 3:21 - Deus arranja roupas de pele de animal para vestir Adão e Eva.
Nada de especial nesta passagem mas achei curioso o facto de Deus em vez de simplesmente criar roupa para eles com um estalar de dedos, preferiu matar uns animais para usar a sua pele como tecido. Seria de esperar que Deus gostasse de todas as suas criações, incluindo os animais, mas como veremos mais à frente, Deus adora que se matem animais.
Génesis 3:23 e 3:24 - Deus expulsa Adão e Eva do jardim de Éden e mete dois anjos armados com espadas de fogo a guardar a árvore da vida.
É, na história, a primeira arma apresentada: espadas de fogo. E é curioso que Deus tenha colocado anjos a guardar a árvore em vez de simplesmente destruir a árvore, quer dizer que os anjos ficam lá para sempre? O que impediria os descendentes de Adão e Eva passados 200 anos de irem lá à árvore? Portanto basicamente, Deus tirou à humanidade a imortalidade que se alcançava comendo os frutos da árvore da vida.
Resumo do castigo: expulsos do jardim (que na prática era como um paraíso) + doenças e dores de parto + trabalho árduo para sobreviver + vida finitas + tudo isto não apenas para os culpados mas para toda a humanidade.
Não é suposto Deus ser misericordioso?
Primeiro ponto óbvio: como é que há uma cobra a falar com Eva? Será preciso mais para as pessoas perceberem que isto é uma fábula e não uma história verídica? Depois, porque razão criou Deus a cobra como um animal malvado e astuto? Que bem poderia advir dessa situação? Há apologistas que dizem que a cobra estava possuída pelo Diabo. Desculpem, mas nada disso está escrito no livro, portanto essa teoria é só uma invenção para tentar desculpar o facto de Deus ter criado um animal aparentemente malévolo.
Também me chamou a atenção Eva saber que não se podia comer da árvore do conhecimento apesar deste aviso ter sido feito por Deus a Adão antes de Eva ser criada, mas vou dar de barato que foi Adão que lhe disse mais tarde apesar disso não vir escrito em lado nenhum.
Por fim, supostamente Adão e Eva só ganharam conhecimento do bem e do mal depois de comerem da "árvore do conhecimento do bem e do mal" por isso, como haveriam eles de saber que era errado desobedecer a Deus? (Já para não dizer que Deus obrigatoriamente já devia saber que eles iam desobedecer) E porque não quer Deus que eles adquiram conhecimento do bem e do mal? Quer que eles vivam para sempre na ignorância? Isto é importante pois este primeiro "crime" designado por "Pecado Original" é o que vai amaldiçoar para sempre a humanidade até aos nossos dias.
Génesis 3:7 - Depois de ganhar conhecimento, Adão e Eva apercebem-se que estão nus e sentem vergonha.
Como exactamente é que eles se apercebem que estão nus? Eles são os dois únicos humanos na Terra e os animais não usam roupa por isso eles nunca viram um ser vivo a tapar as suas zonas privadas, nunca viram roupa na vida. E mesmo que soubessem que estavam nus, só poderiam ser vistos por Deus, que os criou e conhece tudo incluindo a anatomia dos humanos ou o seu conjugue com quem vive e cuja única "missão" é procriar a vida inteira. Em qualquer dessas situações, porque haveriam de ter vergonha?
Génesis 3:8 e 3:9 - Deus anda a passear no jardim do Éden e não vendo Adão chama-o e pergunta onde está (eles tinham-se escondido nos arbustos por vergonha de estarem nus).
Tirando a imagem engraçada que é imaginar Deus a passear no jardim (é o único momento na Bíblia em que Deus aparece explicitamente a andar pela Terra), esta passagem dá um pontapé na ideia de Deus ser omnisciente e omnipresente. Se ele sabe tudo deveria saber onde estava Adão e não precisar de lhe perguntar. E se ele fosse omnipresente, teoricamente seria impossível esconder-mo-nos de Deus pois ele estaria lá.
Génesis 3:16 a 3:19 - Como castigo por terem comido da árvore do conhecimento, Deus faz com que daí em diante os homens tenham de produzir com grande esforço o seu alimento e faz com que dar à luz seja muito doloroso para as mulheres além de serem para sempre subservientes aos homens.
Que castigo tão severo por comer uma peça de fruta! Tudo bem que eles possam ser castigados mas porquê castigar os seus descendentes para sempre? Eles não tiveram culpa de nada.
Génesis 3:21 - Deus arranja roupas de pele de animal para vestir Adão e Eva.
Nada de especial nesta passagem mas achei curioso o facto de Deus em vez de simplesmente criar roupa para eles com um estalar de dedos, preferiu matar uns animais para usar a sua pele como tecido. Seria de esperar que Deus gostasse de todas as suas criações, incluindo os animais, mas como veremos mais à frente, Deus adora que se matem animais.
Génesis 3:23 e 3:24 - Deus expulsa Adão e Eva do jardim de Éden e mete dois anjos armados com espadas de fogo a guardar a árvore da vida.
É, na história, a primeira arma apresentada: espadas de fogo. E é curioso que Deus tenha colocado anjos a guardar a árvore em vez de simplesmente destruir a árvore, quer dizer que os anjos ficam lá para sempre? O que impediria os descendentes de Adão e Eva passados 200 anos de irem lá à árvore? Portanto basicamente, Deus tirou à humanidade a imortalidade que se alcançava comendo os frutos da árvore da vida.
Resumo do castigo: expulsos do jardim (que na prática era como um paraíso) + doenças e dores de parto + trabalho árduo para sobreviver + vida finitas + tudo isto não apenas para os culpados mas para toda a humanidade.
Não é suposto Deus ser misericordioso?
Analisando a Bíblia: Génesis 2
Génesis 2:2 - Deus acaba a criação do mundo ao 7.º dia e descansa.
Questão óbvia: porque é que um ser omnipotente precisa de descansar? A omnipotência significa ser capaz de fazer tudo, mesmo que isso fosse trabalhar para a eternidade sem sentir fadiga. Mas, como veremos à frente, Deus sofre de muitos defeitos humanos.
Génesis 2:5 - "ainda não havia plantas na Terra nem tinha brotado a erva."
Ainda não passámos da primeira página e já começamos com contradições! Anteriormente, em Génesis 1:11/12, tinha ficado estabelecido que ao terceiro dia Deus tinha criado as plantas, as árvores e a erva, mas agora afinal já diz que não havia plantas na Terra. Enfim, avancemos.
Génesis 2:7 - Deus cria o homem a partir de barro da terra. Soprando-lhe nas narinas dá-lhe respiração e vida.
Então mas anteriormente, em Génesis 1:26, Deus tinha criado o homem e mulher à sua imagem mas agora volta a criá-lo. Para efeitos de história, os dois primeiros humanos são Eva e Adão, mas os que Deus criou primeiro são simplesmente ignorados. Sim, há duas histórias de criação.
Outra coisa: até aqui Deus tinha criado o mundo e todos os animais aparentemente do ar, simplesmente os lançava para a existência (o que pode fazer sendo omnipotente) mas para criar o homem (nesta segunda versão) fá-lo a partir de barro. Porquê? Parece um bocado aleatório. Obviamente sabemos que somos constituídos por vários elementos químicos, alguns dos quais estão presentes no barro, mas não somos feitos de barro. Aparentemente Deus tem uma queda para a alquimia.
Génesis 2:9 - Deus cria as árvores (outra vez) que eram agradáveis à vista e davam bons frutos para comer, incluindo a árvore da vida (cujos frutos permitem a Adão viver para sempre) e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Coloca ambas estas árvores no meio do jardim do Éden.
Génesis 2:16/17 - Deus proíbe Adão de comer da árvore do conhecimento pois se o fizer ficará condenado a morrer.
E aqui começa a ser demonstrada uma faceta de Deus presente em toda a Bíblia: o gosto por provocar e brincar com a vida das pessoas. Porque criou uma árvore que não quer que os humanos comam sabendo de antemão, já que sabe tudo por ser omnisciente, que os humanos iam comer dela? E se, por algum motivo, tivesse mesmo de criá-la, porquê fazê-la cheirosa e agradável à vista como as outras de onde eles comiam e depois metê-la exactamente no meio do jardim onde eles viviam em vez de num sítio recôndito e isolado onde os humanos não chegassem? É como deixar uma caixa de rebuçados nas mãos de uma criança e proibir-la de comer.
Génesis 2:22 - Deus cria a mulher a partir da costela de Adão.
Novamente, ignora a página anterior onde os humanos já tinham sido criados. Novamente, em vez de simplesmente criar a mulher do nada como fez com tudo o resto na Terra precisou de arrancar uma costela a Adão. Deus e a sua alquimia.
Questão óbvia: porque é que um ser omnipotente precisa de descansar? A omnipotência significa ser capaz de fazer tudo, mesmo que isso fosse trabalhar para a eternidade sem sentir fadiga. Mas, como veremos à frente, Deus sofre de muitos defeitos humanos.
Génesis 2:5 - "ainda não havia plantas na Terra nem tinha brotado a erva."
Ainda não passámos da primeira página e já começamos com contradições! Anteriormente, em Génesis 1:11/12, tinha ficado estabelecido que ao terceiro dia Deus tinha criado as plantas, as árvores e a erva, mas agora afinal já diz que não havia plantas na Terra. Enfim, avancemos.
Génesis 2:7 - Deus cria o homem a partir de barro da terra. Soprando-lhe nas narinas dá-lhe respiração e vida.
Então mas anteriormente, em Génesis 1:26, Deus tinha criado o homem e mulher à sua imagem mas agora volta a criá-lo. Para efeitos de história, os dois primeiros humanos são Eva e Adão, mas os que Deus criou primeiro são simplesmente ignorados. Sim, há duas histórias de criação.
Outra coisa: até aqui Deus tinha criado o mundo e todos os animais aparentemente do ar, simplesmente os lançava para a existência (o que pode fazer sendo omnipotente) mas para criar o homem (nesta segunda versão) fá-lo a partir de barro. Porquê? Parece um bocado aleatório. Obviamente sabemos que somos constituídos por vários elementos químicos, alguns dos quais estão presentes no barro, mas não somos feitos de barro. Aparentemente Deus tem uma queda para a alquimia.
Génesis 2:9 - Deus cria as árvores (outra vez) que eram agradáveis à vista e davam bons frutos para comer, incluindo a árvore da vida (cujos frutos permitem a Adão viver para sempre) e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Coloca ambas estas árvores no meio do jardim do Éden.
Génesis 2:16/17 - Deus proíbe Adão de comer da árvore do conhecimento pois se o fizer ficará condenado a morrer.
E aqui começa a ser demonstrada uma faceta de Deus presente em toda a Bíblia: o gosto por provocar e brincar com a vida das pessoas. Porque criou uma árvore que não quer que os humanos comam sabendo de antemão, já que sabe tudo por ser omnisciente, que os humanos iam comer dela? E se, por algum motivo, tivesse mesmo de criá-la, porquê fazê-la cheirosa e agradável à vista como as outras de onde eles comiam e depois metê-la exactamente no meio do jardim onde eles viviam em vez de num sítio recôndito e isolado onde os humanos não chegassem? É como deixar uma caixa de rebuçados nas mãos de uma criança e proibir-la de comer.
Génesis 2:22 - Deus cria a mulher a partir da costela de Adão.
Novamente, ignora a página anterior onde os humanos já tinham sido criados. Novamente, em vez de simplesmente criar a mulher do nada como fez com tudo o resto na Terra precisou de arrancar uma costela a Adão. Deus e a sua alquimia.
Analisando a Bíblia: Génesis 1
(Nota prévia: está desde logo subentendido pelo contexto e pela ideia criada culturalmente que Deus tem três características imutáveis: é omnipotente (ou seja, consegue fazer tudo), é omnisciente (sabe tudo) e é omnipresente (está em todo o lado). É importante desde logo assentar esta noção para o que vem depois.)
Génesis 1:3 - Deus cria a luz.
Génesis 1:11 - Deus cria ervas, plantas e árvores de fruto.
Génesis 1:16 - Deus cria o Sol e a Lua.
Portanto desde logo, há incoerência. Foi criado o sol muito depois de haver luz, o que levanta a questão de onde vem a luz? Obviamente sabemos que a luz que temos na Terra, pelo menos a que diferencia o dia da noite é proveniente do sol por tanto isto não faz sentido. Também é engraçado notar que as plantas são criadas antes do sol (que como sabemos, necessitam para sobreviver) mas é importante assinalar a criação das plantas para uma referência mais à frente.
Génesis 1:26 - Deus diz "façamos o homem à nossa imagem."
Génesis 1:27 - Deus cria o homem e a mulher à sua imagem (em simultâneo).
Curiosa a forma como Deus diz à "nossa" e não à "minha" imagem (não, não é erro de tradução). Estas histórias bíblicas são originárias da zona da antiga Babilónia onde a maioria das religiões eram politeístas, como tal, quando foram compiladas na Bíblia (para quem pensa que a Bíblia foi escrita por um indivíduo a comando de Deus, esqueça. É uma compilação de muitas histórias mais antigas que circulavam na altura.) o livro do Génesis não estava planeado ser o livro fundacional de uma religião e como tal na sua origem era provavelmente politeísta no sentido em que admite a existência de vários deuses como veremos mais adiante.
A maioria das pessoas lembra-se de Eva, a primeira mulher, como sendo criada a partir de uma costela de Adão. De facto essa história ocorre mais à frente. Sim é verdade, há duas histórias na Bíblia sobre a criação do homem e da mulher. Perguntarão: "Então quem é a mulher que foi criada em simultâneo com Adão?" Como já disse, a Bíblia é uma compilação de várias histórias que circulavam na altura, mas nem todas foram seleccionadas para estar na versão final. Um desses casos é o Livro de Lilith (vão à Wikipédia) que conta a história dessa primeira mulher. Nesse livro conta que Lilith recusou-se a ser subserviente a Adão e acabou por ser morta por isso. Como essa história não está presente na Bíblia, esta primeira mulher é simplesmente ignorada como se não existisse. (Contradições deste género ocorrem constantemente na Bíblia)
Génesis 1:28 - Deus diz ao homem e à mulher para serem férteis, procriarem e encherem a Terra.
Do ponto de vista biológico, apenas um homem e uma mulher não seriam suficientes para propagar a espécie para os milhões que existem hoje. Porquê? Variedade genética! Todos os descendentes seriam consanguíneos. Irmãos teriam de procriar ou com a mãe ou com irmãs na segunda geração ou com primos de 1.º grau na terceira geração. Não levaria muito tempo até os descendentes estarem degenerados e começarem a ter severas deficiências que levavam a um aborto espontâneo. Nenhuma espécie que necessite de reprodução sexuada para gerar descendência sobrevive apenas com dois elementos.
Génesis 1:3 - Deus cria a luz.
Génesis 1:11 - Deus cria ervas, plantas e árvores de fruto.
Génesis 1:16 - Deus cria o Sol e a Lua.
Portanto desde logo, há incoerência. Foi criado o sol muito depois de haver luz, o que levanta a questão de onde vem a luz? Obviamente sabemos que a luz que temos na Terra, pelo menos a que diferencia o dia da noite é proveniente do sol por tanto isto não faz sentido. Também é engraçado notar que as plantas são criadas antes do sol (que como sabemos, necessitam para sobreviver) mas é importante assinalar a criação das plantas para uma referência mais à frente.
Génesis 1:26 - Deus diz "façamos o homem à nossa imagem."
Génesis 1:27 - Deus cria o homem e a mulher à sua imagem (em simultâneo).
Curiosa a forma como Deus diz à "nossa" e não à "minha" imagem (não, não é erro de tradução). Estas histórias bíblicas são originárias da zona da antiga Babilónia onde a maioria das religiões eram politeístas, como tal, quando foram compiladas na Bíblia (para quem pensa que a Bíblia foi escrita por um indivíduo a comando de Deus, esqueça. É uma compilação de muitas histórias mais antigas que circulavam na altura.) o livro do Génesis não estava planeado ser o livro fundacional de uma religião e como tal na sua origem era provavelmente politeísta no sentido em que admite a existência de vários deuses como veremos mais adiante.
A maioria das pessoas lembra-se de Eva, a primeira mulher, como sendo criada a partir de uma costela de Adão. De facto essa história ocorre mais à frente. Sim é verdade, há duas histórias na Bíblia sobre a criação do homem e da mulher. Perguntarão: "Então quem é a mulher que foi criada em simultâneo com Adão?" Como já disse, a Bíblia é uma compilação de várias histórias que circulavam na altura, mas nem todas foram seleccionadas para estar na versão final. Um desses casos é o Livro de Lilith (vão à Wikipédia) que conta a história dessa primeira mulher. Nesse livro conta que Lilith recusou-se a ser subserviente a Adão e acabou por ser morta por isso. Como essa história não está presente na Bíblia, esta primeira mulher é simplesmente ignorada como se não existisse. (Contradições deste género ocorrem constantemente na Bíblia)
Génesis 1:28 - Deus diz ao homem e à mulher para serem férteis, procriarem e encherem a Terra.
Do ponto de vista biológico, apenas um homem e uma mulher não seriam suficientes para propagar a espécie para os milhões que existem hoje. Porquê? Variedade genética! Todos os descendentes seriam consanguíneos. Irmãos teriam de procriar ou com a mãe ou com irmãs na segunda geração ou com primos de 1.º grau na terceira geração. Não levaria muito tempo até os descendentes estarem degenerados e começarem a ter severas deficiências que levavam a um aborto espontâneo. Nenhuma espécie que necessite de reprodução sexuada para gerar descendência sobrevive apenas com dois elementos.
Analisando a Bíblia
Decidi começar uma nova série ou rubrica aqui no meu canal: Analisar, livro a livro, a Bíblia.
A Bíblia é um livro que li e que continuo a ler, certas partes e saltitando, de tempos a tempos. Poderá, à primeira vista, parecer estranho que um ateu se interesse por ler um livro sagrado que inclusive muitos dos seus seguidores nem sequer lêem.
Pois, a verdade é que, mesmo sendo eu ateu, não posso negar o facto de ser de longe o livro que mais influência teve na história da humanidade e só por isso já merece ser lido por todos, especialmente na nossa cultura ocidental, pois como se pode entender a história e a cultura se não se tiver pelo menos umas luzes do que trata este livro?
Milhões de pessoas morreram e continuam a morrer pelo que está escrito neste livro, decisões políticas e formas de pensar são influenciadas, milhões de pessoas vivem a sua vida baseando-a na interpretação que têm deste livro, portanto seria até algo ignorante de qualquer pessoa que queira ver o mundo "com olhos de ver" não querer saber minimamente o que lá está escrito.
Dito isto, não quer obviamente dizer que atribuo qualquer valor autoritário ou até verídico ao que está escrito na Bíblia. Ou seja, não considero que algo seja verdade só porque ali está escrito. Citar a Bíblia ou o Harry Potter a mim, tem o mesmo valor autoritário, ou seja nenhum. Ler a Bíblia não faz uma pessoa cristã, da mesma maneira que ler o Alcorão (como também já fiz) não faz uma pessoa muçulmana. Para mim a Bíblia é quase uma espécie de livro de mitologia e alegoria como a Odisseia de Homero ou a Eneida de Virgílio, embora sejam obviamente muito diferentes.
A minha análise consistirá em indicar passagens específicas do livro e a minha interpretação, seja assinalar as contradições e o ridículo no contexto do mundo real, quer no contexto da história que está a ser contada. Não farei o resumo da história porque isso seria um tédio. Eu indico as passagens por isso se alguém estiver interessado em saber se aquilo está realmente escrito na Bíblia vá ler por si próprio.
É realmente curioso. Vários inquéritos feitos, inclusive nos EUA um país muitíssimo cristão, demonstraram que os ateus em média têm muito mais conhecimento bíblico que os próprios crentes (muitos pouco mais sabem que a história do nascimento de Jesus). Isso é explicado por dois factores:
1.º - Os ateus estudam os argumentos apresentados para melhor exporem e defender a sua posição e conhecer a Bíblia ajuda imenso.
2.º - A maioria dos ateus são antigos crentes que se tornaram ateus precisamente por se dedicarem a um estudo mais exaustivo do seu livro sagrado. Ler a Bíblia do inicio ao fim, por si só, sem a ajuda de ninguém nas interpretações e que pense de forma honesta e objectiva, dificilmente chega ao fim a pensar que aquilo são as palavras de Deus, tal é o número de contradições, incoerências e atrocidades.
Poderá, em certas alturas, parecer um pouco ridícula a interpretação literal que faço de certas passagens (por exemplo, a cobra que enganou Eva falava mesmo?). Eu tenho noção que muitas destas histórias são apenas alegorias com mensagens morais. Quando leio uma história como o Harry Potter (sempre um bom exemplo) não me preocupo em saber se aquilo podia acontecer realmente ou se vai contra as leis da física, etc. Então porquê aplicar este rigor à Bíblia? Simples: porque há muita gente (felizmente cá em Portugal não tanta como isso) que acredita literalmente no que está escrito na Bíblia da primeira à última página como se aquilo fosse realmente a história do mundo. Há pessoas que tentam racionalizar maneiras de tornar plausíveis as histórias claramente fictícias ali tratadas (existe um museu criacionista nos EUA por exemplo). Se fosse simplesmente uma questão de alguns malucos que querem acreditar que houve mesmo uma cheia que inundou o mundo inteiro ou que temos várias línguas por causa da torre de Babel ou que a Terra só tem alguns (6) milhares de anos não haveria grande problema. O problema reside no facto de muitos deste "malucos" terem grande poder político e legal e fazerem coisas como proibir que se ensine a teoria da evolução nas aulas de ciências das escolas básicas e obrigar que se ensine ás crianças estas histórias como facto. A essas pessoas não pode ser dada a liberdade de impor as suas crenças pseudo-cientificas aos outros e muito menos ás crianças que são muito mais sensíveis à indocrinação.
Para terminar, indico a Bíblia que estou a utilizar:
"A Bíblia para todos" - Edição Católica, traduzida pela Sociedade Bíblica de Portugal, publicada pela Paulinas (com edição da Loja Bíblica Editorial) 2010.
A Bíblia é um livro que li e que continuo a ler, certas partes e saltitando, de tempos a tempos. Poderá, à primeira vista, parecer estranho que um ateu se interesse por ler um livro sagrado que inclusive muitos dos seus seguidores nem sequer lêem.
Pois, a verdade é que, mesmo sendo eu ateu, não posso negar o facto de ser de longe o livro que mais influência teve na história da humanidade e só por isso já merece ser lido por todos, especialmente na nossa cultura ocidental, pois como se pode entender a história e a cultura se não se tiver pelo menos umas luzes do que trata este livro?
Milhões de pessoas morreram e continuam a morrer pelo que está escrito neste livro, decisões políticas e formas de pensar são influenciadas, milhões de pessoas vivem a sua vida baseando-a na interpretação que têm deste livro, portanto seria até algo ignorante de qualquer pessoa que queira ver o mundo "com olhos de ver" não querer saber minimamente o que lá está escrito.
Dito isto, não quer obviamente dizer que atribuo qualquer valor autoritário ou até verídico ao que está escrito na Bíblia. Ou seja, não considero que algo seja verdade só porque ali está escrito. Citar a Bíblia ou o Harry Potter a mim, tem o mesmo valor autoritário, ou seja nenhum. Ler a Bíblia não faz uma pessoa cristã, da mesma maneira que ler o Alcorão (como também já fiz) não faz uma pessoa muçulmana. Para mim a Bíblia é quase uma espécie de livro de mitologia e alegoria como a Odisseia de Homero ou a Eneida de Virgílio, embora sejam obviamente muito diferentes.
A minha análise consistirá em indicar passagens específicas do livro e a minha interpretação, seja assinalar as contradições e o ridículo no contexto do mundo real, quer no contexto da história que está a ser contada. Não farei o resumo da história porque isso seria um tédio. Eu indico as passagens por isso se alguém estiver interessado em saber se aquilo está realmente escrito na Bíblia vá ler por si próprio.
É realmente curioso. Vários inquéritos feitos, inclusive nos EUA um país muitíssimo cristão, demonstraram que os ateus em média têm muito mais conhecimento bíblico que os próprios crentes (muitos pouco mais sabem que a história do nascimento de Jesus). Isso é explicado por dois factores:
1.º - Os ateus estudam os argumentos apresentados para melhor exporem e defender a sua posição e conhecer a Bíblia ajuda imenso.
2.º - A maioria dos ateus são antigos crentes que se tornaram ateus precisamente por se dedicarem a um estudo mais exaustivo do seu livro sagrado. Ler a Bíblia do inicio ao fim, por si só, sem a ajuda de ninguém nas interpretações e que pense de forma honesta e objectiva, dificilmente chega ao fim a pensar que aquilo são as palavras de Deus, tal é o número de contradições, incoerências e atrocidades.
Poderá, em certas alturas, parecer um pouco ridícula a interpretação literal que faço de certas passagens (por exemplo, a cobra que enganou Eva falava mesmo?). Eu tenho noção que muitas destas histórias são apenas alegorias com mensagens morais. Quando leio uma história como o Harry Potter (sempre um bom exemplo) não me preocupo em saber se aquilo podia acontecer realmente ou se vai contra as leis da física, etc. Então porquê aplicar este rigor à Bíblia? Simples: porque há muita gente (felizmente cá em Portugal não tanta como isso) que acredita literalmente no que está escrito na Bíblia da primeira à última página como se aquilo fosse realmente a história do mundo. Há pessoas que tentam racionalizar maneiras de tornar plausíveis as histórias claramente fictícias ali tratadas (existe um museu criacionista nos EUA por exemplo). Se fosse simplesmente uma questão de alguns malucos que querem acreditar que houve mesmo uma cheia que inundou o mundo inteiro ou que temos várias línguas por causa da torre de Babel ou que a Terra só tem alguns (6) milhares de anos não haveria grande problema. O problema reside no facto de muitos deste "malucos" terem grande poder político e legal e fazerem coisas como proibir que se ensine a teoria da evolução nas aulas de ciências das escolas básicas e obrigar que se ensine ás crianças estas histórias como facto. A essas pessoas não pode ser dada a liberdade de impor as suas crenças pseudo-cientificas aos outros e muito menos ás crianças que são muito mais sensíveis à indocrinação.
Para terminar, indico a Bíblia que estou a utilizar:
"A Bíblia para todos" - Edição Católica, traduzida pela Sociedade Bíblica de Portugal, publicada pela Paulinas (com edição da Loja Bíblica Editorial) 2010.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Medicina Alternativa
Hoje vou falar de medicina alternativa e mais concretamente medicina tradicional chinesa e ainda mais especificamente acupunctura.
Existem muitos tipos e variedades de medicina alternativas, sejam ou não orientais e tradicionais, mas há algo que as une: são uma treta. Não apresentam (nem de perto) estudos científicos rigorosos e revistos que provem as afirmações que fazem. Se estes procedimentos estivessem cientificamente confirmados e testados não se chamariam "alternativos" mas simplesmente "medicina".
Quem me ouvir a dizer isto poderá afirmar que fez ou conhece quem tenha feito estes tratamentos e que funcionaram, refutando assim (pelo menos na cabeça deles) este meu cepticismo. Pois lamento informar que para a comunidade científica (cuja metodologia eu apoio por me parecer o melhor caminho para a verdade) dados testemunhais não são credíveis ou pelo menos têm um peso reduzido. Em primeiro lugar porque as testemunhas são selectivas: só mencionam o sucesso do seu tratamento mas quando não são produzidos os efeitos esperados esses dados são omitidos e ignorados.
Além disso, quando se trata de melhorias a partir de medicina alternativas, os resultados podem ser explicados, na esmagadora maioria das vezes, por factores inteiramente naturais. O principal é o efeito placebo. A esmagadora maioria dos estudos feitos sobre este tema afirma que os resultados conseguidos com estas práticas não são melhores que um simples placebo. Isto verifica-se especialmente quando se está a tentar curar um problema do foro psicológico como uma dor, ansiedade ou um vício. Nunca ninguém curou um cancro ou uma pedra nos rins ou uma doença séria com este tipo de tratamentos.
Existem outras possibilidades de explicação:
O nosso corpo combate os problemas de forma natural, portanto muitas vezes é atribuído sucesso a um destes métodos quando a doença estava apenas a fazer o seu percurso normal. Se eu estiver constipado, fizer acupunctura e passado uns dias estiver melhor, a culpa não foi da acupunctura.
Há outras maleitas que têm um carácter cíclico. Por exemplo, a artrite, as alergias, problemas gastrointestinais, etc. basta termos a "sorte" de fazer um tratamento na altura certa e ficamos convencidissímos que foi graças a ele que nos sentimos melhor.
Por vezes é feito um diagnóstico errado do problema que temos, e quando nos curamos mais facilmente do que seria de esperar, atribuímos o sucesso ao tratamento.
Por outro lado, o poder da psicologia no tratamento não pode ser ignorado. Se uma pessoa quiser que o que está a fazer seja verdade, é um passo dado para se sentir melhor. Até pode não estar, mas convence-se a si própria que aquilo está a funcionar.
É normal pensar-se que, por serem tradicionalmente chineses, estes métodos são os usados sistematicamente na China. Isso está errado. A China possui actualmente hospitais iguais aos que nós temos na Europa e América. Hospitais esses que fazem o mesmo tipo de medicina que nós e que não usam os métodos ancestrais. Estes métodos realizam-se exclusivamente em locais especializados tal como cá. O que é que as pessoas pensam? Que eles usam acupunctura em vez de anestesia antes de uma operação? A biologia do ser humano é igual seja num chinês ou num europeu, portanto o que funciona para nós também funciona para eles e vice-versa.
Mas vou avançar agora para a análise à acupunctura em si.
Este tratamento antigo chinês afirma, conforme o "especialista" que o administra, curar dores crónicas, problemas intestinais, lesões musculares, problemas comportamentais como vícios, ansiedade e depressão.
E como faz isto tudo? Espetando agulhas em pontos específicos do corpo (originalmente eram 365 mas agora já vão em mais de 2000) para reajustar o balanço da "energia vital" ou Chi. Escusado será dizer que a existência desta energia nunca foi provada. Quem achar que esta conversa de Chi e Chakras é real dê um saltinho a uma faculdade de medicina e pergunte aos alunos em que cadeira é que eles aprendem a localizar o Chi.
Ah! Mas aí está algo curioso, estes métodos não são ensinados nas faculdades de medicina. Então como é que alguém se pode tornar perito?
Uma vez li uma entrevista de um jovem com uma doença crónica que decidiu dedicar a vida a curar pessoas com estes métodos mais "espirituais" e menos exaustivos para o corpo. Inscreveu-se numa escola de acupunctura para um curso de 3 anos. (Pagava milhares de dólares de "propinas" por ano). O relato que ele fez de uma das suas aulas e da matéria dada é uma coisa extraordinária, apenas ao alcance das mentes mais imaginativas: passavam o dia a aprender "filosofias" como "os rins guardam a essência da vida, porque a água é a base da vida. A estação dos rins é o inverno porque a água geralmente é fria. O medo também é frio por isso é a emoção dos rins. Esta energia contrabalança com o fogo do coração, que é quente como o Verão." E o professor não se esqueceu de mencionar que aquilo saía para o teste!
Quando o jovem perguntava exactamente como é que aquilo funcionava os professores limitavam-se a dizer que era sabedoria muito antiga e de confiança embora não houvesse muitos estudos modernos sobre o assunto.
Mas esse jovem queria realmente aprender como funcionava para dedicar a vida a ajudar pessoas, por isso, perante a incapacidade de resposta dos professores, foi sozinho investigar e ler o máximo que pudesse sobre o assunto. Constatou que a larga maioria dos estudos científicos já publicados sobre acupunctura (em revistas de prestigio como a Nature) afirmavam que esta não funcionava ou pelo menos, não era estatisticamente melhor que um placebo. Apenas um pequeno número de estudos publicados em revistas sem revisão cientifica é que o validavam.
Confrontou os seus professores com o que aprendera e estes defenderam que os artigos que refutavam a acupunctura eram propaganda das corporações farmacêuticas para obterem lucro. Estas teorias da conspiração não foram o que levaram o jovem a desistir da "escola". O que o levou a desistir foi o facto de lhe terem dito que ele estava a pensar demasiado e que devia deixar-se ir na conversa.
Houve um estudo muito interessante feito por dois cientistas da Universidade de Heidelberg em que criaram umas agulhas falsas mas que simulavam na perfeição o acto de penetrar na pele embora estivessem só coladas. Nenhum dos pacientes em quem foram testadas suspeitou que eram falsas e não sentiram qualquer diferença em relação a uma sessão normal de acupunctura.
O que me chateia nas medicinas alternativas não é o facto das pessoas as quererem experimentar. Posso até ter compaixão por pessoas desesperadas por uma cura para o seu problema e que vêem nestes métodos uma solução. O que eu acho detestável são quem os administra porque fazem afirmações e promessas sem demonstrar qualquer prova da veracidade do que estão a dizer. Enganam as pessoas. Existem vários casos de pessoas com problemas sérios como cancro que em vez de procurarem tratamento eficaz e credível preferem estes métodos que não fazem nada e acabam por morrer. A quimioterapia pode ser bem mais dolorosa que espetar pequenas agulhas na pele, mas ao menos está a combater a doença!
Como base para as ideias que citei, podem ver:
http://quackwatch.org/
http://whatstheharm.net/acupuncture.html
Existem muitos tipos e variedades de medicina alternativas, sejam ou não orientais e tradicionais, mas há algo que as une: são uma treta. Não apresentam (nem de perto) estudos científicos rigorosos e revistos que provem as afirmações que fazem. Se estes procedimentos estivessem cientificamente confirmados e testados não se chamariam "alternativos" mas simplesmente "medicina".
Quem me ouvir a dizer isto poderá afirmar que fez ou conhece quem tenha feito estes tratamentos e que funcionaram, refutando assim (pelo menos na cabeça deles) este meu cepticismo. Pois lamento informar que para a comunidade científica (cuja metodologia eu apoio por me parecer o melhor caminho para a verdade) dados testemunhais não são credíveis ou pelo menos têm um peso reduzido. Em primeiro lugar porque as testemunhas são selectivas: só mencionam o sucesso do seu tratamento mas quando não são produzidos os efeitos esperados esses dados são omitidos e ignorados.
Além disso, quando se trata de melhorias a partir de medicina alternativas, os resultados podem ser explicados, na esmagadora maioria das vezes, por factores inteiramente naturais. O principal é o efeito placebo. A esmagadora maioria dos estudos feitos sobre este tema afirma que os resultados conseguidos com estas práticas não são melhores que um simples placebo. Isto verifica-se especialmente quando se está a tentar curar um problema do foro psicológico como uma dor, ansiedade ou um vício. Nunca ninguém curou um cancro ou uma pedra nos rins ou uma doença séria com este tipo de tratamentos.
Existem outras possibilidades de explicação:
O nosso corpo combate os problemas de forma natural, portanto muitas vezes é atribuído sucesso a um destes métodos quando a doença estava apenas a fazer o seu percurso normal. Se eu estiver constipado, fizer acupunctura e passado uns dias estiver melhor, a culpa não foi da acupunctura.
Há outras maleitas que têm um carácter cíclico. Por exemplo, a artrite, as alergias, problemas gastrointestinais, etc. basta termos a "sorte" de fazer um tratamento na altura certa e ficamos convencidissímos que foi graças a ele que nos sentimos melhor.
Por vezes é feito um diagnóstico errado do problema que temos, e quando nos curamos mais facilmente do que seria de esperar, atribuímos o sucesso ao tratamento.
Por outro lado, o poder da psicologia no tratamento não pode ser ignorado. Se uma pessoa quiser que o que está a fazer seja verdade, é um passo dado para se sentir melhor. Até pode não estar, mas convence-se a si própria que aquilo está a funcionar.
É normal pensar-se que, por serem tradicionalmente chineses, estes métodos são os usados sistematicamente na China. Isso está errado. A China possui actualmente hospitais iguais aos que nós temos na Europa e América. Hospitais esses que fazem o mesmo tipo de medicina que nós e que não usam os métodos ancestrais. Estes métodos realizam-se exclusivamente em locais especializados tal como cá. O que é que as pessoas pensam? Que eles usam acupunctura em vez de anestesia antes de uma operação? A biologia do ser humano é igual seja num chinês ou num europeu, portanto o que funciona para nós também funciona para eles e vice-versa.
Mas vou avançar agora para a análise à acupunctura em si.
Este tratamento antigo chinês afirma, conforme o "especialista" que o administra, curar dores crónicas, problemas intestinais, lesões musculares, problemas comportamentais como vícios, ansiedade e depressão.
E como faz isto tudo? Espetando agulhas em pontos específicos do corpo (originalmente eram 365 mas agora já vão em mais de 2000) para reajustar o balanço da "energia vital" ou Chi. Escusado será dizer que a existência desta energia nunca foi provada. Quem achar que esta conversa de Chi e Chakras é real dê um saltinho a uma faculdade de medicina e pergunte aos alunos em que cadeira é que eles aprendem a localizar o Chi.
Ah! Mas aí está algo curioso, estes métodos não são ensinados nas faculdades de medicina. Então como é que alguém se pode tornar perito?
Uma vez li uma entrevista de um jovem com uma doença crónica que decidiu dedicar a vida a curar pessoas com estes métodos mais "espirituais" e menos exaustivos para o corpo. Inscreveu-se numa escola de acupunctura para um curso de 3 anos. (Pagava milhares de dólares de "propinas" por ano). O relato que ele fez de uma das suas aulas e da matéria dada é uma coisa extraordinária, apenas ao alcance das mentes mais imaginativas: passavam o dia a aprender "filosofias" como "os rins guardam a essência da vida, porque a água é a base da vida. A estação dos rins é o inverno porque a água geralmente é fria. O medo também é frio por isso é a emoção dos rins. Esta energia contrabalança com o fogo do coração, que é quente como o Verão." E o professor não se esqueceu de mencionar que aquilo saía para o teste!
Quando o jovem perguntava exactamente como é que aquilo funcionava os professores limitavam-se a dizer que era sabedoria muito antiga e de confiança embora não houvesse muitos estudos modernos sobre o assunto.
Mas esse jovem queria realmente aprender como funcionava para dedicar a vida a ajudar pessoas, por isso, perante a incapacidade de resposta dos professores, foi sozinho investigar e ler o máximo que pudesse sobre o assunto. Constatou que a larga maioria dos estudos científicos já publicados sobre acupunctura (em revistas de prestigio como a Nature) afirmavam que esta não funcionava ou pelo menos, não era estatisticamente melhor que um placebo. Apenas um pequeno número de estudos publicados em revistas sem revisão cientifica é que o validavam.
Confrontou os seus professores com o que aprendera e estes defenderam que os artigos que refutavam a acupunctura eram propaganda das corporações farmacêuticas para obterem lucro. Estas teorias da conspiração não foram o que levaram o jovem a desistir da "escola". O que o levou a desistir foi o facto de lhe terem dito que ele estava a pensar demasiado e que devia deixar-se ir na conversa.
Houve um estudo muito interessante feito por dois cientistas da Universidade de Heidelberg em que criaram umas agulhas falsas mas que simulavam na perfeição o acto de penetrar na pele embora estivessem só coladas. Nenhum dos pacientes em quem foram testadas suspeitou que eram falsas e não sentiram qualquer diferença em relação a uma sessão normal de acupunctura.
O que me chateia nas medicinas alternativas não é o facto das pessoas as quererem experimentar. Posso até ter compaixão por pessoas desesperadas por uma cura para o seu problema e que vêem nestes métodos uma solução. O que eu acho detestável são quem os administra porque fazem afirmações e promessas sem demonstrar qualquer prova da veracidade do que estão a dizer. Enganam as pessoas. Existem vários casos de pessoas com problemas sérios como cancro que em vez de procurarem tratamento eficaz e credível preferem estes métodos que não fazem nada e acabam por morrer. A quimioterapia pode ser bem mais dolorosa que espetar pequenas agulhas na pele, mas ao menos está a combater a doença!
Como base para as ideias que citei, podem ver:
http://quackwatch.org/
http://whatstheharm.net/acupuncture.html
terça-feira, 26 de agosto de 2014
A alma
Na minha publicação anterior sobre as experiências extracorporais, falei sobre a inverosímil ideia de a alma deixar o corpo físico, e depois regressar a ele durante uma experiência à beira da morte.
Talvez devesse ter começado por publicar primeiro este texto sobre a "alma" que só por si tem muito que se lhe diga. Parece-me óbvio que a alma ou espírito é, não uma ilusão como no caso anterior, mas uma pura invenção.
Basicamente, o que a maior parte das pessoas entende por "alma", é um espírito imaterial que reside no corpo humano e que ao contrario deste é imortal. Quando uma pessoa morre, é apenas o corpo físico que expira, pois a alma vai, dependendo da crença para o paraíso (céu), purgatório, inferno, ou simplesmente para o mundo dos espíritos.
Isto é a ideia básica, visto que nunca ninguém consegue concordar numa definição específica e concisa.
Pois bem, a primeira coisa que salta à vista é: como exactamente é que este espírito interage com o corpo? Se é imaterial, então coisas físicas (ou materiais) não podem interagir com ela, no entanto de alguma forma ela interage com o cérebro e vice-versa. A ciência já dissecou o corpo humano até à exaustão mas nunca encontrámos lá nenhuma "alma". (Mas presumo que quem acredite nelas as imagine invisíveis, por isso adiante)
O ponto seguinte é: exactamente que informação é que uma alma contém? A ciência já provou e demonstrou que partes específicas do nosso cérebro são responsáveis pelas emoções, memórias, pensamentos, além obviamente de todo o comando das funções corporais. Há, como se sabe, numerosos casos de pessoas que sofrem danos cerebrais e perdem memórias ou mudam completamente de personalidade. Portanto, podemos assumir que a suposta alma não tem nada desta informação, pois se é imaterial, então certamente não seria afectada por um acidente que danificasse o cérebro. Além disso, se a alma contivesse as nossas memórias, então qual era o propósito de as ter também no cérebro físico? (Talvez fosse só um backup). Então quem tem amnésia ou alzheimer tem um problema no cérebro ou na alma?
Isto já para não dizer que o uso de drogas químicas podem afectar as nossas memórias e emoções, portanto esses químicos estão a modificar as propriedades da alma? E as pessoas que têm dupla personalidade? Têm duas almas dentro do corpo?
Outro aspecto interessante: há uns tempos tive um "mini-debate" com um americano na secção de comentários de um vídeo no youtube sobre espíritos e casas assombradas. A certa altura questionei-o se os animais tinham alma. Esta é uma pergunta que divide muitas teologias. No antigo testamento, parece não haver diferença entre o espírito dos animais e dos homens, mas isto pode ser resultado de traduções enganosas feitas ao longo dos séculos para se adequar ao modelo teológico vigente. No judaísmo e cristianismo modernos os animais não têm alma.
Eu questionei-o da seguinte maneira:
Tendo em conta que o homem é um animal que foi evoluindo ao longo de milhões de anos como todos os outros (assumi que ele não disputava a factualidade da teoria evolutiva de selecção natural. Embora tratando-se de um americano, eu não devesse assumir isso tão levianamente), então a partir de que momento na nossa evolução é que adquirimos a alma? Porque obviamente um australopitecos não deu à luz um homo Sapiens já com alma incluída. Se os antepassados do homem podiam ter alma, então também outros animais poderiam como os actuais macacos e cães. E porquê parar aí? Porquê assumir que só os mamíferos podem ter alma? Que tal os pássaros, os répteis e os insectos? Mas já que estamos nos insectos porque não ir até ás plantas? Não, melhor ainda, porque não consideramos simplesmente que todos os seres vivos têm alma? Afinal, toda a vida na terra pode ser regredida até um antepassado comum.
Mas isso levanta um problema: se considerarmos que todos os seres vivos têm alma, então somos forçados a aceitar que os microorganismos como células e bactérias também a têm. E por acaso, o ser humano é composto por milhões de células. Então o homem não teria uma alma individualizada e sua mas sim milhões de mini-almas das células que o compõem. (como podem ver, quando falamos de almas, a conversa torna-se algo ridícula muito rapidamente).
Ele respondeu-me que só um cérebro poderoso e com grande capacidade de processamento poderia ter uma alma.
(Que conveniente escolher uma característica claramente humana como factor diferenciador!) Saltando a parte óbvia de que definir cérebro poderoso é problemático e que capacidade de processamento é demasiado abstracto já que há animais que processam melhor certas informações que o ser humano, (por exemplo, vários estudos já demonstraram que o chimpanzé tem uma memória de curto prazo muito superior à humana), ele caiu numa armadilha óbvia: ao afirmar que a alma só se produz na presença de um cérebro poderoso, está forçosamente a afirmar que pessoas com danos cerebrais ou que nasceram com deficiências e atrasos mentais não têm alma! O mesmo sendo verdade de pessoas em estado vegetativo.
Confesso que gostava de saber qual teria sido a sua resposta mas depois disto ele parou de me responder. Retire-se daí as conclusões que se queira.
Portanto, a minha conclusão é: não existe nenhuma alma ou espírito, é simplesmente uma invenção criada pelo ser humano dado o seu medo de pensar que a morte é o fim. Muitos antropólogos já sugeriram que inventámos a alma como tentativa de perceber o que acontece quando morremos. Uma das primeiras observações é a de que o morto já não respira. Não é coincidência que a origem etimológica da palavra alma ou espírito em várias línguas venha de "ar" ou "vento". Pensar que as nossas memórias e personalidade se mantêm intactas após a morte e que podemos rever antigos conhecidos dá-nos conforto para enfrentarmos a trágica realidade da morte, mas obviamente não fazem dessas ideias verdades.
Talvez devesse ter começado por publicar primeiro este texto sobre a "alma" que só por si tem muito que se lhe diga. Parece-me óbvio que a alma ou espírito é, não uma ilusão como no caso anterior, mas uma pura invenção.
Basicamente, o que a maior parte das pessoas entende por "alma", é um espírito imaterial que reside no corpo humano e que ao contrario deste é imortal. Quando uma pessoa morre, é apenas o corpo físico que expira, pois a alma vai, dependendo da crença para o paraíso (céu), purgatório, inferno, ou simplesmente para o mundo dos espíritos.
Isto é a ideia básica, visto que nunca ninguém consegue concordar numa definição específica e concisa.
Pois bem, a primeira coisa que salta à vista é: como exactamente é que este espírito interage com o corpo? Se é imaterial, então coisas físicas (ou materiais) não podem interagir com ela, no entanto de alguma forma ela interage com o cérebro e vice-versa. A ciência já dissecou o corpo humano até à exaustão mas nunca encontrámos lá nenhuma "alma". (Mas presumo que quem acredite nelas as imagine invisíveis, por isso adiante)
O ponto seguinte é: exactamente que informação é que uma alma contém? A ciência já provou e demonstrou que partes específicas do nosso cérebro são responsáveis pelas emoções, memórias, pensamentos, além obviamente de todo o comando das funções corporais. Há, como se sabe, numerosos casos de pessoas que sofrem danos cerebrais e perdem memórias ou mudam completamente de personalidade. Portanto, podemos assumir que a suposta alma não tem nada desta informação, pois se é imaterial, então certamente não seria afectada por um acidente que danificasse o cérebro. Além disso, se a alma contivesse as nossas memórias, então qual era o propósito de as ter também no cérebro físico? (Talvez fosse só um backup). Então quem tem amnésia ou alzheimer tem um problema no cérebro ou na alma?
Isto já para não dizer que o uso de drogas químicas podem afectar as nossas memórias e emoções, portanto esses químicos estão a modificar as propriedades da alma? E as pessoas que têm dupla personalidade? Têm duas almas dentro do corpo?
Outro aspecto interessante: há uns tempos tive um "mini-debate" com um americano na secção de comentários de um vídeo no youtube sobre espíritos e casas assombradas. A certa altura questionei-o se os animais tinham alma. Esta é uma pergunta que divide muitas teologias. No antigo testamento, parece não haver diferença entre o espírito dos animais e dos homens, mas isto pode ser resultado de traduções enganosas feitas ao longo dos séculos para se adequar ao modelo teológico vigente. No judaísmo e cristianismo modernos os animais não têm alma.
Eu questionei-o da seguinte maneira:
Tendo em conta que o homem é um animal que foi evoluindo ao longo de milhões de anos como todos os outros (assumi que ele não disputava a factualidade da teoria evolutiva de selecção natural. Embora tratando-se de um americano, eu não devesse assumir isso tão levianamente), então a partir de que momento na nossa evolução é que adquirimos a alma? Porque obviamente um australopitecos não deu à luz um homo Sapiens já com alma incluída. Se os antepassados do homem podiam ter alma, então também outros animais poderiam como os actuais macacos e cães. E porquê parar aí? Porquê assumir que só os mamíferos podem ter alma? Que tal os pássaros, os répteis e os insectos? Mas já que estamos nos insectos porque não ir até ás plantas? Não, melhor ainda, porque não consideramos simplesmente que todos os seres vivos têm alma? Afinal, toda a vida na terra pode ser regredida até um antepassado comum.
Mas isso levanta um problema: se considerarmos que todos os seres vivos têm alma, então somos forçados a aceitar que os microorganismos como células e bactérias também a têm. E por acaso, o ser humano é composto por milhões de células. Então o homem não teria uma alma individualizada e sua mas sim milhões de mini-almas das células que o compõem. (como podem ver, quando falamos de almas, a conversa torna-se algo ridícula muito rapidamente).
Ele respondeu-me que só um cérebro poderoso e com grande capacidade de processamento poderia ter uma alma.
(Que conveniente escolher uma característica claramente humana como factor diferenciador!) Saltando a parte óbvia de que definir cérebro poderoso é problemático e que capacidade de processamento é demasiado abstracto já que há animais que processam melhor certas informações que o ser humano, (por exemplo, vários estudos já demonstraram que o chimpanzé tem uma memória de curto prazo muito superior à humana), ele caiu numa armadilha óbvia: ao afirmar que a alma só se produz na presença de um cérebro poderoso, está forçosamente a afirmar que pessoas com danos cerebrais ou que nasceram com deficiências e atrasos mentais não têm alma! O mesmo sendo verdade de pessoas em estado vegetativo.
Confesso que gostava de saber qual teria sido a sua resposta mas depois disto ele parou de me responder. Retire-se daí as conclusões que se queira.
Portanto, a minha conclusão é: não existe nenhuma alma ou espírito, é simplesmente uma invenção criada pelo ser humano dado o seu medo de pensar que a morte é o fim. Muitos antropólogos já sugeriram que inventámos a alma como tentativa de perceber o que acontece quando morremos. Uma das primeiras observações é a de que o morto já não respira. Não é coincidência que a origem etimológica da palavra alma ou espírito em várias línguas venha de "ar" ou "vento". Pensar que as nossas memórias e personalidade se mantêm intactas após a morte e que podemos rever antigos conhecidos dá-nos conforto para enfrentarmos a trágica realidade da morte, mas obviamente não fazem dessas ideias verdades.
sábado, 16 de agosto de 2014
Experiências Extracorporais
Recentemente, numa das muitas visitas que costumo fazer à loja Fnac e em particular à zona de livraria, deparei-me com um tipo de livro que aparentemente está bastante na moda (se bem que já existam há bastante tempo). Na secção "Espiritualidades" (que ironicamente fica mesmo ao lado da secção de "Divulgação Cientifica") há uma série de livros sobre pessoas que estiveram às portas da morte mas sobreviveram e quando voltaram tinham histórias extraordinárias de visões angelicais. Tinham falado com Jesus, familiares já falecidos, Deus, o Diabo, e por vezes o seu espírito até tinha deixado o corpo físico, ao ponto de o poder ver de frente, geralmente deitado numa maca com os médicos à sua volta, e claro nunca esquecendo, a famosa luz ao fundo do túnel.
Para essas pessoas, estes acontecimentos representam a prova irrefutável de que a vida depois da morte é real, que as figuras religiosas também são reais e este livro é uma tentativa de dar as boas notícias às pessoas que não tiveram a "sorte" de ter experienciado esse acontecimento.
Ora bem, não estou aqui para afirmar liminarmente que tudo isso é falso e que a vida depois da morte não existe (ninguém pode ter a certeza absoluta, eu pessoalmente não fico convencido nem por um instante) mas apenas para chamar a atenção para alguns problemas que estas histórias apresentam.
Em primeiro lugar o mais óbvio: se uma pessoa tiver uma experiência deste género (como com todas as experiências pessoais) pode estar plenamente justificada em acreditar no que viu, mas obviamente não pode esperar que todas as outras pessoas que nunca tiveram a experiência também acreditem uma vez que não são apresentadas provas. Se aceitássemos o que todos dizem sem requerer provas, seriamos forçados a acreditar em tudo (já houve quem afirmasse que viajou no cometa Halley por exemplo). No caso concreto destas experiências extracorporais, como geralmente têm um forte teor religioso, mais facilmente as pessoas se "esforçam" por acreditar já que querem que isso seja verdade mas já lá vamos a essa parte.
Vou agora citar o neurofisiólogo Kevin Nelson, que deu uma entrevista sobre este assunto, e que pode ser lida na edição de Janeiro 2013 da revista "Super Interessante". Vou saltar a parte em que ele fala sobre a fase REM (movimentos oculares rápidos) e fase não-REM enquanto dormimos que afectam os nossos sonhos, pois isso iria complicar e prolongar demasiado este meu texto.
Ele fala de que quando o corpo está à beira da morte, como quando se sofre um enfarte por exemplo, "a tensão arterial diminui de forma radical e, com ela, a irrigação do cérebro, que se sente ameaçado. Uma das suas reacções é activar a fase REM quando o doente está acordado, embora esteja de olhos fechados. Quando isso acontece, desliga-se a área parietotemporal, aquela que permite a orientação no espaço. E este apagão provoca experiências extracorporais."
Dá como exemplo um investigador suíço (chamado Olaf Blanke) que "conseguiu que uma mulher acreditasse estar a flutuar fora do corpo, e que voltava a integrá-lo quando se estimulava essa zona com diminutos eléctrodos. Era como ligar e desligar um interruptor. Trata-se de uma ilusão, mas de uma ilusão extremamente poderosa."
A clássica visão da "luz ao fundo do túnel" também se explica com a falta de oxigénio: "Como o nervo óptico não recebe sangue suficiente, o olho é afectado e perde visão periférica."
Outro caso curioso: não existe um único caso, capaz de resistir ao escrutínio, de pessoas que nasceram cegas e que descrevam pormenores de uma experiência à beira da morte.
Também há quem afirme que teve as experiências depois de estar clinicamente morto. Será que pode acontecer? Nelson: "Claro que não. As pessoas confundem a morte clínica com uma paragem cardíaca. Contudo, a lesão cerebral só surge 30 minutos depois de uma redução de 90% do fluxo sanguíneo."
E no que concerne a vida depois da morte, estas experiências confirmam-na?
"Não se pode deduzir que as experiências extracorporais provam que a alma se mantém viva depois da morte. Aqueles que o afirmam estão a utilizar pseudociência para criar falsas esperanças." (e acrescento eu, para escrever um livro e ganhar bom dinheiro)
Finalmente, um questão incontornável: aquilo que alguém vê nas experiências à beira da morte é fruto e directamente influenciado pela própria cultura.
"Há quem afirme ter tido um encontro com Elvis Presley. Estou certo de que um habitante das florestas da Papua-Nova Guiné vê outro tipo de pessoas."
É perfeitamente natural que um cristão veja Jesus, um muçulmano veja Maomé ou um budista veja Buda. Só poderia haver conclusões a tirar sobre a veracidade destas figuras se alguém que nunca tivesse tido contacto ou conhecimento delas as relatasse. Até porque não podem ser todas verdadeiras. Mas isso nunca aconteceu.
Portanto, o que será mais plausível: que uma entidade sobrenatural como Jesus ou Deus ou Alá ou Shiva se revele apenas a algumas pessoas, que já acreditavam em si mesmo antes de estarem à beira da morte, ignorando completamente os milhões de pessoas que acreditam noutras coisas, e fá-lo num momento em que a pessoa está com falta de oxigénio no cérebro, o que lhe afecta enormemente a capacidade de percepcionar o mundo e de tal maneira que essa pessoa, sobrevivendo, nunca poderá provar que essa entidade lhe falou até porque outras pessoas dizem ter falado com outras entidades diferentes. Ou simplesmente que o cérebro (o orgão mais poderoso e complexo não só do nosso corpo mas da natureza) duma pessoa à beira da morte lhe provocou uma ilusão por não estar a trabalhar bem?
Para essas pessoas, estes acontecimentos representam a prova irrefutável de que a vida depois da morte é real, que as figuras religiosas também são reais e este livro é uma tentativa de dar as boas notícias às pessoas que não tiveram a "sorte" de ter experienciado esse acontecimento.
Ora bem, não estou aqui para afirmar liminarmente que tudo isso é falso e que a vida depois da morte não existe (ninguém pode ter a certeza absoluta, eu pessoalmente não fico convencido nem por um instante) mas apenas para chamar a atenção para alguns problemas que estas histórias apresentam.
Em primeiro lugar o mais óbvio: se uma pessoa tiver uma experiência deste género (como com todas as experiências pessoais) pode estar plenamente justificada em acreditar no que viu, mas obviamente não pode esperar que todas as outras pessoas que nunca tiveram a experiência também acreditem uma vez que não são apresentadas provas. Se aceitássemos o que todos dizem sem requerer provas, seriamos forçados a acreditar em tudo (já houve quem afirmasse que viajou no cometa Halley por exemplo). No caso concreto destas experiências extracorporais, como geralmente têm um forte teor religioso, mais facilmente as pessoas se "esforçam" por acreditar já que querem que isso seja verdade mas já lá vamos a essa parte.
Vou agora citar o neurofisiólogo Kevin Nelson, que deu uma entrevista sobre este assunto, e que pode ser lida na edição de Janeiro 2013 da revista "Super Interessante". Vou saltar a parte em que ele fala sobre a fase REM (movimentos oculares rápidos) e fase não-REM enquanto dormimos que afectam os nossos sonhos, pois isso iria complicar e prolongar demasiado este meu texto.
Ele fala de que quando o corpo está à beira da morte, como quando se sofre um enfarte por exemplo, "a tensão arterial diminui de forma radical e, com ela, a irrigação do cérebro, que se sente ameaçado. Uma das suas reacções é activar a fase REM quando o doente está acordado, embora esteja de olhos fechados. Quando isso acontece, desliga-se a área parietotemporal, aquela que permite a orientação no espaço. E este apagão provoca experiências extracorporais."
Dá como exemplo um investigador suíço (chamado Olaf Blanke) que "conseguiu que uma mulher acreditasse estar a flutuar fora do corpo, e que voltava a integrá-lo quando se estimulava essa zona com diminutos eléctrodos. Era como ligar e desligar um interruptor. Trata-se de uma ilusão, mas de uma ilusão extremamente poderosa."
A clássica visão da "luz ao fundo do túnel" também se explica com a falta de oxigénio: "Como o nervo óptico não recebe sangue suficiente, o olho é afectado e perde visão periférica."
Outro caso curioso: não existe um único caso, capaz de resistir ao escrutínio, de pessoas que nasceram cegas e que descrevam pormenores de uma experiência à beira da morte.
Também há quem afirme que teve as experiências depois de estar clinicamente morto. Será que pode acontecer? Nelson: "Claro que não. As pessoas confundem a morte clínica com uma paragem cardíaca. Contudo, a lesão cerebral só surge 30 minutos depois de uma redução de 90% do fluxo sanguíneo."
E no que concerne a vida depois da morte, estas experiências confirmam-na?
"Não se pode deduzir que as experiências extracorporais provam que a alma se mantém viva depois da morte. Aqueles que o afirmam estão a utilizar pseudociência para criar falsas esperanças." (e acrescento eu, para escrever um livro e ganhar bom dinheiro)
Finalmente, um questão incontornável: aquilo que alguém vê nas experiências à beira da morte é fruto e directamente influenciado pela própria cultura.
"Há quem afirme ter tido um encontro com Elvis Presley. Estou certo de que um habitante das florestas da Papua-Nova Guiné vê outro tipo de pessoas."
É perfeitamente natural que um cristão veja Jesus, um muçulmano veja Maomé ou um budista veja Buda. Só poderia haver conclusões a tirar sobre a veracidade destas figuras se alguém que nunca tivesse tido contacto ou conhecimento delas as relatasse. Até porque não podem ser todas verdadeiras. Mas isso nunca aconteceu.
Portanto, o que será mais plausível: que uma entidade sobrenatural como Jesus ou Deus ou Alá ou Shiva se revele apenas a algumas pessoas, que já acreditavam em si mesmo antes de estarem à beira da morte, ignorando completamente os milhões de pessoas que acreditam noutras coisas, e fá-lo num momento em que a pessoa está com falta de oxigénio no cérebro, o que lhe afecta enormemente a capacidade de percepcionar o mundo e de tal maneira que essa pessoa, sobrevivendo, nunca poderá provar que essa entidade lhe falou até porque outras pessoas dizem ter falado com outras entidades diferentes. Ou simplesmente que o cérebro (o orgão mais poderoso e complexo não só do nosso corpo mas da natureza) duma pessoa à beira da morte lhe provocou uma ilusão por não estar a trabalhar bem?
domingo, 15 de junho de 2014
Touradas
Vamos a mais um tema polémico: touradas. Eu sou contra a sua existência. Como a maior parte dos temas polémicos, este possui argumentos a favor e contra, fãs e opositores, mas se há algo que pode funcionar para ultrapassar estas divergências é o debate. Esse é o meu ponto de vista. Daí me ter chamado a atenção a crónica de tauromaquia que todos os sábados é publicada na secção de Cultura do Correio da Manhã. A crónica a que me estou a referir é a do dia 31 de Maio de 2014, da autoria de Maurício do Vale e tem por título "A riqueza popular da festa taurina". No fundo, esta crónica procura passar a ideia que a tourada reúne "gente erudita e notáveis das mais diversas áreas." Nada a opor. Não duvido que reúna. Mas o que me "chocou" foi a forma como acabou a crónica: "Discuti-la para melhorá-la e promovê-la, sim! Mas para "sim ou não" é tempo mal gasto e falta de bom senso..."
Discutir a existência de tourada é falta de bom senso? A ideia que me dá é que não se quer discutir o assunto porque, para já, ainda é aceite pela maioria da população e à falta de bons argumentos, mais vale não discutir senão em vez de ganhar novos apoiantes, ainda pode ganhar novos opositores. Já é hábito aqui do meu blog publicar os argumentos habitualmente usados pela facção à qual me oponho e apresentar as minhas respostas, mas neste caso, as respostas não são minhas mas sim do blog "O Melhor e Pior" de Nuno Costa. Faço-o porque ao pesquisar o tema encontrei o dito blog onde a minha opinião estava bem expressa e no mesmo formato que eu costumo usar. Assim sendo, crédito a Nuno Costa:
As Touradas são uma tradição antiga e por isso devem ser defendidas e perpetuadas.
As touradas são de facto uma tradição (importada de Espanha). Mas isso por si só não deve justicar que se pratiquem. As tradições têm normalmente origem em tempos antigos, em que as sociedades, mentalidades e modos de vida eram bastante diferentes dos actuais. Com o tempo, o Homem e as suas comunidades tendem a aperfeiçoar e desenvolver a sua forma de viver e pensar. Chama-se a isso evolução. É por essa razão que já não tomamos banho com baldes de água aquecida numa fogueira, é por essa razão que a escravatura, que tanto agradava a algumas pessoas, foi abolida e é também por essa razão que já não acreditamos que basta dançar ou sacrificar um animal para fazer chover.
As tradições, por muito bonitas que sejam, só fazem sentido quando são compatíveis com as formas de pensar e os conceitos vigentes. Como hoje em dia, o respeito pelo sofrimento dos animais começa a fazer parte da forma de pensar de muita gente, as Touradas deveriam ser postas em causa e abolidas (ou pelo menos repensadas, por exemplo, porque não usar bandarilhas que se fixem no touro de outro modo que não espetando-as? Sempre se poupava algum sofrimento ao animal.)
O que o Homem deve ambicionar é uma sociedade mais inteligente, mais culta, com menos violência, injustiça e sofrimento. As tradições não devem nunca ser um obstáculo à prática de valores mais importantes.
Se não fossem as Touradas e os seus adeptos, a raça dos Touros Bravos já estava extinta.
Isto é evidentemente falso. Os Pandas e outros animais que correram risco de extinção nunca serviram para as Touradas e continuam a existir. Felizmente existem no nosso país reservas e espaços destinados a que determinadas raças subsistam caso os seus habitats naturais não o permitam. De qualquer forma com certeza de que os aficionados que dizem tanto amar os Touros se esforçariam para que estes sobrevivessem mesmo que não servissem para nada.
Independentemente de tudo isto, o mais importante é deixar claro que perpetuar uma espécie de animais apenas para que estes possam ser usados em espectáculos que se baseiam no seu sofrimento não é um acto nobre nem louvável. E muito menos favorável ao próprio animal.
Isto é evidentemente falso. Os Pandas e outros animais que correram risco de extinção nunca serviram para as Touradas e continuam a existir. Felizmente existem no nosso país reservas e espaços destinados a que determinadas raças subsistam caso os seus habitats naturais não o permitam. De qualquer forma com certeza de que os aficionados que dizem tanto amar os Touros se esforçariam para que estes sobrevivessem mesmo que não servissem para nada.
Independentemente de tudo isto, o mais importante é deixar claro que perpetuar uma espécie de animais apenas para que estes possam ser usados em espectáculos que se baseiam no seu sofrimento não é um acto nobre nem louvável. E muito menos favorável ao próprio animal.
Quem não gosta ou não concorda, não veja.
Felizmente na nossa sociedade, as coisas não são assim. Se toda a gente fechasse os olhos às injustiças que se passam à sua volta o mundo seria certamente bastante diferente. É evidente que quando sabemos que se passa algo com que não concordamos, o remédio não é olhar para outro lado. Isso já muita gente faz em relação a demasiadas coisas.
Este argumento é tão despropositado que torna-se quase ridículo combatê-lo. No entanto pode dizer-se o seguinte:
Quem se insurge contra as touradas não o faz por prazer nem proveito próprio. Esse esforço deve, por isso, ser respeitado por quem consegue assistir ao espectáculo sem a mínima misericórdia e reflexão pelo que lá se passa.
Quem é contra as Touradas devia preocupar-se com outras coisas que também são feitas, nomeadamente o abandono de cães.
O Ser Humano tem a capacidade de se preocupar com várias coisas ao mesmo tempo. É uma espécie de dom. O facto de se ser contra as Touradas não invalida que a pessoa não se preocupe com muitas outras coisas que se fazem a outros animais. Não é por haver uma guerra no Iraque que não nos podemos preocupar com os assaltos ou com a inflação.
Há sempre coisas mais e menos graves, mas temos evidentemente o direito de nos preocupar com todas.
Certamente que quem critica as touradas insurge-se também contra o abandono de cães, lutas organizadas de animais e muitos outros assuntos.
Quem diz que é contra as touradas é hipócrita porque muitas vezes maltrata os cães e outros animais.
Esta é uma afirmação que não se baseia em nada (nem em lógica nem em senso comum) a não ser na experiência pessoal que eventualmente alguém terá. Pessoas e argumentos hipócritas haverá sempre, e não é por isso que se pode generalizar e tomar a parte pelo todo.
Ao contrário daquela afirmação, o razoável é supor que quem é contra as touradas preza os sentimentos dos animais de uma forma profunda e geral. E é normalmente isso que se verifica.
O touro praticamente não sofre com o que lhe é feito na arena.
É de facto difícil afirmar o que é que um Touro sente numa tourada. No entanto, os estudos científicos (http://articles.animalconcerns.org/ar-voices/archive/pain.html) feitos até agora apontam no sentido de que as agressões sofridas antes e durante as corridas sejam não só dolorosas mas incapacitantes. O touro fica com nervos e músculos rasgados, e a quantidade de sangue que perde continuamente enfraquece-o. Não parece ser sensato pensar que isto pode ser agradável para o Touro, ou mesmo indiferente.
O touro, tal como os outros mamíferos, ao ter sistema nervoso central tem capacidade para sentir dor, ansiedade, medo e sofrimento. E os sinais exteriores que mostra na arena denunciam essas emoções. Não é portanto razoável aceitar a ideia de que os Touros sofrem pouco numa tourada.
Os Touros nascem para serem lidados. São animais agressivos por natureza.
Uma coisa é o instinto de sobrevivência e auto-defesa de um animal, outra é o seu temperamento e personalidade. Embora o cortex cerebral de um Touro seja bastante mais básico do que o Humano (o que faz com que a sua personalidade seja igualmente menos complexa), cada animal tem o seu próprio temperamento, fruto, como no Homem, de factores genéticos associados a experiências vividas. O que todos têm em comum dentro da espécie é a sua técnica de defesa, que utilizam sempre que se sentem em perigo. Isto não deve ser confundido com a chamada "natureza" do animal. Com certeza que um Touro saudável deixado em paz no campo não anda a atacar tudo o que se mexe.
Se quem gosta, respeita a opinião de quem não gosta, porque é que quem é contra não respeita a opinião contrária?
Toda a gente respeita as opiniões de todos e na realidade a opinião de quem é favorável às touradas também deve ser respeitada. A sua prática é que não.
É fácil entender isto se pensarmos que Hitler era da opinião de que todos os Judeus deviam ser exterminados.
Mesmo que alguém tenha o direito a ter opiniões bizarras sobre qualquer assunto a sua colocação em prática não tem que ser respeitada nem tolerada se isso for ilegítimo. Se a prática de Touradas choca contra princípios considerados importantes por quem se lhes opõe, esta não tem que ser admitida.
A arte de tourear é tão bonita que seria uma pena perdê-la.
A “arte” de tourear pode de facto ser considerada bonita, ter grande mérito artístico e principalmente técnico. Mas perde toda a legitimidade quando necessita de fazer sofrer física e psicológicamente animais para ser executada. Tal sofrimento não se pode impôr a um animal que não tem nada a ver com o assunto. É injusto, prepotente e cobarde fazê-lo. Esta arte, se bonita, é injusta e cobarde e nenhuma arte pode ter mérito assim. Nesse aspecto penso que todos concordarão. É uma arte desonrosa, para utilizar a linha de valores da tauromaquia.
A arte de lutar até à morte dos gladiadores era considerada bastante mais honrosa e bonita por quem assistia. Mesmo essa acabou. Será também uma pena?
As Touradas enaltecem a nobreza do Touro.
Só uma mente muito ignorante ou distorcida pode realmente acreditar que os Touros quando vão para uma arena cumprem um qualquer desígnio divino.
A justificação de que o Touro é nobre por lutar pela vida numa tourada vem de quem alimenta o seu negócio e enriquece à custa deste espectáculo perverso mas rentável. A nobreza é um conceito inventado pelo homem. Na natureza todos os animais são iguais e todos lutam pela sobrevivência. Ninguém duvida de que o Homem, numa luta com as suas armas e condições consegue ser superior a qualquer outro animal. Provar isso numa luta desigual não é nobre, é estúpido.
Os argumentos contra as Touradas:
Não há qualquer justificação moral para se causar sofrimento a um animal para fins de entretenimento.
A recusa em ter consideração pelo sofrimento de um animal só pode ter origem em três factores: falta de cultura, falta de educação ou falta de carácter.
É muito simples, pouco mais há a dizer sobre o assunto.
Felizmente na nossa sociedade, as coisas não são assim. Se toda a gente fechasse os olhos às injustiças que se passam à sua volta o mundo seria certamente bastante diferente. É evidente que quando sabemos que se passa algo com que não concordamos, o remédio não é olhar para outro lado. Isso já muita gente faz em relação a demasiadas coisas.
Este argumento é tão despropositado que torna-se quase ridículo combatê-lo. No entanto pode dizer-se o seguinte:
Quem se insurge contra as touradas não o faz por prazer nem proveito próprio. Esse esforço deve, por isso, ser respeitado por quem consegue assistir ao espectáculo sem a mínima misericórdia e reflexão pelo que lá se passa.
Quem é contra as Touradas devia preocupar-se com outras coisas que também são feitas, nomeadamente o abandono de cães.
O Ser Humano tem a capacidade de se preocupar com várias coisas ao mesmo tempo. É uma espécie de dom. O facto de se ser contra as Touradas não invalida que a pessoa não se preocupe com muitas outras coisas que se fazem a outros animais. Não é por haver uma guerra no Iraque que não nos podemos preocupar com os assaltos ou com a inflação.
Há sempre coisas mais e menos graves, mas temos evidentemente o direito de nos preocupar com todas.
Certamente que quem critica as touradas insurge-se também contra o abandono de cães, lutas organizadas de animais e muitos outros assuntos.
Quem diz que é contra as touradas é hipócrita porque muitas vezes maltrata os cães e outros animais.
Esta é uma afirmação que não se baseia em nada (nem em lógica nem em senso comum) a não ser na experiência pessoal que eventualmente alguém terá. Pessoas e argumentos hipócritas haverá sempre, e não é por isso que se pode generalizar e tomar a parte pelo todo.
Ao contrário daquela afirmação, o razoável é supor que quem é contra as touradas preza os sentimentos dos animais de uma forma profunda e geral. E é normalmente isso que se verifica.
O touro praticamente não sofre com o que lhe é feito na arena.
É de facto difícil afirmar o que é que um Touro sente numa tourada. No entanto, os estudos científicos (http://articles.animalconcerns.org/ar-voices/archive/pain.html) feitos até agora apontam no sentido de que as agressões sofridas antes e durante as corridas sejam não só dolorosas mas incapacitantes. O touro fica com nervos e músculos rasgados, e a quantidade de sangue que perde continuamente enfraquece-o. Não parece ser sensato pensar que isto pode ser agradável para o Touro, ou mesmo indiferente.
O touro, tal como os outros mamíferos, ao ter sistema nervoso central tem capacidade para sentir dor, ansiedade, medo e sofrimento. E os sinais exteriores que mostra na arena denunciam essas emoções. Não é portanto razoável aceitar a ideia de que os Touros sofrem pouco numa tourada.
Os Touros nascem para serem lidados. São animais agressivos por natureza.
Uma coisa é o instinto de sobrevivência e auto-defesa de um animal, outra é o seu temperamento e personalidade. Embora o cortex cerebral de um Touro seja bastante mais básico do que o Humano (o que faz com que a sua personalidade seja igualmente menos complexa), cada animal tem o seu próprio temperamento, fruto, como no Homem, de factores genéticos associados a experiências vividas. O que todos têm em comum dentro da espécie é a sua técnica de defesa, que utilizam sempre que se sentem em perigo. Isto não deve ser confundido com a chamada "natureza" do animal. Com certeza que um Touro saudável deixado em paz no campo não anda a atacar tudo o que se mexe.
Se quem gosta, respeita a opinião de quem não gosta, porque é que quem é contra não respeita a opinião contrária?
Toda a gente respeita as opiniões de todos e na realidade a opinião de quem é favorável às touradas também deve ser respeitada. A sua prática é que não.
É fácil entender isto se pensarmos que Hitler era da opinião de que todos os Judeus deviam ser exterminados.
Mesmo que alguém tenha o direito a ter opiniões bizarras sobre qualquer assunto a sua colocação em prática não tem que ser respeitada nem tolerada se isso for ilegítimo. Se a prática de Touradas choca contra princípios considerados importantes por quem se lhes opõe, esta não tem que ser admitida.
A arte de tourear é tão bonita que seria uma pena perdê-la.
A “arte” de tourear pode de facto ser considerada bonita, ter grande mérito artístico e principalmente técnico. Mas perde toda a legitimidade quando necessita de fazer sofrer física e psicológicamente animais para ser executada. Tal sofrimento não se pode impôr a um animal que não tem nada a ver com o assunto. É injusto, prepotente e cobarde fazê-lo. Esta arte, se bonita, é injusta e cobarde e nenhuma arte pode ter mérito assim. Nesse aspecto penso que todos concordarão. É uma arte desonrosa, para utilizar a linha de valores da tauromaquia.
A arte de lutar até à morte dos gladiadores era considerada bastante mais honrosa e bonita por quem assistia. Mesmo essa acabou. Será também uma pena?
As Touradas enaltecem a nobreza do Touro.
Só uma mente muito ignorante ou distorcida pode realmente acreditar que os Touros quando vão para uma arena cumprem um qualquer desígnio divino.
A justificação de que o Touro é nobre por lutar pela vida numa tourada vem de quem alimenta o seu negócio e enriquece à custa deste espectáculo perverso mas rentável. A nobreza é um conceito inventado pelo homem. Na natureza todos os animais são iguais e todos lutam pela sobrevivência. Ninguém duvida de que o Homem, numa luta com as suas armas e condições consegue ser superior a qualquer outro animal. Provar isso numa luta desigual não é nobre, é estúpido.
Os argumentos contra as Touradas:
Não há qualquer justificação moral para se causar sofrimento a um animal para fins de entretenimento.
A recusa em ter consideração pelo sofrimento de um animal só pode ter origem em três factores: falta de cultura, falta de educação ou falta de carácter.
É muito simples, pouco mais há a dizer sobre o assunto.
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